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Londrina

Brasileiro é condenado nos Estados Unidos por escravidão Da correspondente Monica Yanakiew

PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2000


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Washington, 10 (AE) - O engenheiro brasileiro Renê Bonetti foi condenado hoje (10) por um tribunal federal norte-americano, pelos crimes de escravizar a sua empregada doméstica Hilda dos Santos, pôr a vida dela em risco e mantê-la nos Estados Unidos como imigrante ilegal.
A pena máxima é de 20 anos, mas a sentença só será ditada pela juíza Deborah Chasanaw em 15 de maio, às 11h locais. Bonetti terá de esperar a decisão na cadeia, numa cela comum. Por ter bons antecedentes, não deverá ser condenado à pena máxima. Segundo o advogado de Bonetti, John Maginnis, a sentença será de "de cinco a oito anos de prisão" - uma punição mais severa do que ele receberia no Brasil por assassinato.
"Ele está reagindo com muita serenidade", disse Maginnis à tarde. "Ele é um homem sereno." Minutos antes, a polícia pedira que seu cliente entregasse todos seus pertences de valor (uma corrente de prata, com a imagem da Virgem, e seu relógio) e colocasse as mãos atrás das costas, para ser algemado.
Antes de ser levado da sala 4B do Tribunal Federal de Greenbelt (que fica a meia hora de carro de Washington) para a prisão, sorriu tristemente para dois de seus amigos que testemunharam a seu favor. E sem nada dizer, piscou um olho.
Ele já decidiu apelar. "Mas este é um processo lento, que pode levar um ano ou mais, e durante esse tempo ele terá de ficar na cadeia", disse Maginnis.
A pedido da promotoria, a juíza não permitiu que Bonetti aguardasse a sentença em liberdade - nem mesmo entregando seu passaporte e pagando uma fiança de US$ 50.000. O motivo, explicou, é que ele teria recursos financeiros suficientes e ligações especiais com o Brasil. Ou seja, dinheiro e apoio da família para fugir dos Estados Unidos e não cumprir a pena.
Em 1992 - 13 anos depois de sua chegada aos EUA -, Bonetti naturalizou-se norte-americano. Na época, a legislação do Brasil não permitia que ele mantivesse a nacionalidade brasileira. "Mas isso mudou e pedi minha nacionalidade brasileira de volta", explicou ele, numa entrevista hoje.
Por ser cidadão dos EUA, Bonetti está numa situação mais complicada que sua mulher, Margarida, que manteve a nacionalidade brasileira. Ela é acusada de cometer os mesmos crimes que seu marido e de ter, também, agredido fisicamente Hilda. Mas não foi julgada ainda porque está em São Paulo, para onde viajou quando seu pai, o médico Geraldo de Azevedo, morreu.
"Se eu for condenado, vou aconselhar minha mulher a não voltar", disse Bonetti, antes de saber o veredicto do júri. "De que adianta duas pessoas na cadeia aqui." Mas durante todo o dia, enquanto os 12 jurados estavam reunidos para chegar a um consenso, ele esperava ser absolvido. Hilda, explicou, "era uma débil mental". Se acreditassem na palavra dela, acrescentou, "a Justiça não funciona".
Viagem - A história dos Bonetti começou em 1979, quando Bonetti viajou aos EUA por apenas um ano. Levou consigo a mulher
o filho, Arthur, e, a pedido dos sogros, Hilda, que trabalhava com eles como doméstica. Durante todo o processo, Bonetti tentou convencer o júri que Hilda estava na casa como "amiga da família" e não para trabalhar. Mas depoimentos contraditórios convenceram o júri do contrário.
Criada num bordel em Minas, Hilda foi trabalhar para os Azevedo em São Paulo, quando tinha 28 anos. Margarida, na época, tinha nove anos. As duas "cresceram juntas", segundo a defesa. Bonetti conta que Margarida tinha Hilda como única companheira, enquanto os pais trabalhavam fora.
Mas, ao mesmo tempo, quando quis explicar por qual motivo Hilda não era a sua empregada, disse que ela era "incompetente" e "débil mental". Não sabia, por exemplo, dizer a hora, o dia certo, ou o nome da cidade onde morava. Era totalmente dependente. Só foi para os EUA porque estava sendo ameaçada de morte pela mulher de seu amante.
Hilda tinha visto para ficar nos EUA até 1984. De 1979 até então, segundo os Bonetti, recebia seu salário no Brasil. Quando seu visto não foi renovado, o casal continuou mantendo Hilda em sua casa, sem remunerar seus serviços. Eles insistem que morava com a família de favor, como "amiga" e não empregada.
O caso de Hilda acabou sendo investigado pelo FBI, depois que ela recorreu a vizinhos para ir a um hospital. Seus patrões estavam viajando e ela tinha um tumor no útero, além de uma hérnia no estômago. Se era totalmente dependente dos Bonetti, precisava da atenção deles, argumentaram os promotores. Como não recebeu, Bonetti foi acusado de pôr sua vida em risco.