Brasileiro desvenda mistério de fóssil de cobra com patas
Brasileiro desvenda mistério de fóssil de cobra com patas17/Mar, 22:42 Por Herton Escobar São Paulo, 17 (AE) - Um pesquisador brasileiro da Universidade de São Paulo (USP) conseguiu um grande avanço no estudo da origem das serpentes: trouxe os cientistas de volta à estaca zero. A partir do estudo de um raríssimo fóssil de 95 milhões de anos, o carioca Hussam Zaher, professor de zoologia e especialista em serpentes, comprovou que alguns desses animais exibiram pequenas patas posteriores até pelo menos o fim do período Cretáceo. Em uma pesquisa feita em parceria com pesquisadores dos Estados Unidos e Israel, publicada hoje na conceituada revista americana "Science", Zaher classifica a nova espécie de serpente com patas (batizada de Haasiophis terrasanctus, por ter sido encontrada na Terra Santa) como um animal derivado, tal como as pítons e jibóias de hoje. Até agora, acreditava-se que as cobras com patas representavam um ancestral comum a todas as serpentes. A ossada, de mais de 70 centímetros, encontrada em Ein Yabrud, ao norte de Jerusalém, apresenta estruturas completas de patas posteriores. Com isso, fica novamente em aberto a questão de quando e onde as serpentes se originaram. Cientistas concluíram que elas são descendentes dos lagartos, mas não sabem exatamente de que grupo. "Voltamos à estaca zero", disse Zaher, de 38 anos, que agora se dedica a estudar a diversidade de cobras e lagartos para tentar posicionar as serpentes na história evolutiva das espécies. Controvérsia - A tese de Zaher contradiz a teoria apresentada em 1997 por uma dupla de pesquisadores da Austrália e do Canadá, baseada no estudo de dois fósseis de serpentes com patas encontrados junto com o da Haasiophis na década de 70, pelo paleontólogo George Haas. Esses exemplares foram batizados de Pachyrhachis problematicus, por serem tão difíceis de estudar e apresentarem dados inconclusos, disse Zaher à reportagem. "A história desse bicho é longa", conta o pesquisador, doutor pelo Museu de História Natural de Paris, acrescentando que o fóssil da Haasiophis está em muito melhor estado de conservação. Os cientistas acreditavam que a Pachyrachis era o "elo perdido" entre as serpentes e um grupo extinto de lagartos marinhos chamados mosasauros. As cobras, então, teriam origem marinha, e suas patas desaparecido em um ancestral comum na transição para o meio terrestre. "Em 1998, eu reanalisei a questão e mostrei que, na verdade, a Pachyrhachis tinha diversas características de uma serpente evoluída", conta Zaher, que na época publicou um artigo sobre o assunto no jornal "Fieldiana" do Field Museum, em Chicago, onde estava estudando. "No meu entender, a Pachyrhachis não era mais um intermediário, mas uma cobra derivada com patas desenvolvidas." "A idéia chave aqui é que esses fósseis estão localizados mais acima na cadeia evolutiva das cobras e não nos dizem nada sobre suas origens", ressaltou Olivier Rieppel, curador de fósseis de répteis do Field Museum e parceiro de Zaher no estudo em entrevista telefônica. Evolução - Zaher e Rieppel então foram convidados pelo curador de fósseis da Universidade Hebraica de Jerusalém, Eitan Tchernov para estudar o fóssil da Haasiophis com dois outros especialistas do Texas, Michael Polcyn e Louis Jacobs. Após um ano de estudos, eles concluíram que a Haasiophis e a Pachyrhachis não são relacionadas aos mosasauros, derrubando a teoria de origem marinha das serpentes. "Nós chegamos meio que como os estraga-festas", brinca Zaher filho de um egípcio com uma brasileira. Ele acredita que as serpentes perderam suas patas várias vezes ao longo da evolução das espécies, e que a Haasiophis e a Pachyrhachis, hoje extintas mantiveram essas estruturas por mais tempo. Rieppel observa que muitas cobras atuais apresentam vestígios genéticos e anatômicos da presença de patas. As pítons, por exemplo, possuem uma unha externa remanescente dessa estrutura. Com tanta controvérsia envolvendo os estudos, Rieppel disse que só o tempo poderá mostrar qual teoria será aceita pela comunidade científica. "Estamos convencidos de que fizemos uma boa análise."





