Brasileiro chora no tribunal e consegue perdão
Nova York , 16 (AE) - O juiz Raymond Dearie, da Corte Federal do Brooklyn, condenou hoje a oito meses de prisão o brasileiro Samuel Soares, de 23 anos, acusado de tráfico de drogas. Foi uma decisão generosa e rara, revogando acordo entre a promotoria e o advogado do brasileiro, que previa pena de seis anos.
Ao justificar sua sentença, o juiz Dearie admitiu estar comovido com o choro e as promessas de regeneração de Soares, feitas durante o julgamento, encerrado ao meio-dia de ontem: "Espero que você não esteja me enganando", disse.
Soares está preso desde 11 de junho, quando desembarcou no Aeroporto John Kennedy com seis quilos de heroína na bagagem. Na ocasião, ele era funcionário do Banco do Brasil em Belo Horizonte.
Para viajar, alegara que iria a Nova York para se casar com uma mineira cidadã americana.
Durante o flagrante da prisão no aeroporto, Soares alegou inocência, afirmando carregar um pacote para outra pessoa, desconhecida. Depois, jogou a culpa na tal noiva.
Mais tarde, confessou tudo. Ajudou o FBI a prender pelo menos um dos envolvidos na operação - seu nome não foi revelado. A tal noiva mineira não tinha nada a ver com a história e já está namorando um americano. Nesse meio tempo, Soares foi demitido do banco por justa causa.
Ontem, no julgamento, Soares parou de dar voltas e assumiu sua culpa. "Quanto você ganhou para trazer a droga", perguntou-lhe o juiz. "Três mil", respondeu, sem especificar se em dólares ou reais.
O juiz gastou alguns minutos lendo a papelada em voz alta.
De vez em quando, espiava Soares com o canto do olhos. Ele permanecia sério, de mãos às costas, aguardando a sentença. A figura: um rapagão de 1,80, pele clara, cabelos negros curtos, rosto redondo, agora sem o cavanhaque que usava quando foi preso.
O juiz terminou de ler o processo. Reclinou-se na poltrona. "Vou lhe dar uma chance de explicar porque envolveu-se no narcotráfico". Soares pegou o espírito da ocasião. Com voz grave, começou bem devagar: "Fui ambicioso. Ganancioso. Queria ganhar dinheiro fácil". O efeito pareceu positivo. O juiz balançou a cabeça e o encorajou a continuar falando.
Nesse ponto, Soares desabou. Começou a chorar, despejando frases rápidas. "Por favor, tenha pena de mim, tenha misericórdia, tenha piedade". Ia implorando e soluçando, com lágrimas rolando pela face. Uma intérprete traduzia seus apelos, ao mesmo tempo em que o supria com lenços de papel.
Dearie, um homem de cabelos grisalhos e fisionomia severa, ficou olhando a cena por cima dos óculos. "Você entende que o que fez merece punição pesada ? Que posso lhe dar seis anos ?" "Aceito, mas eu peço clemência. Por favor, quero ser deportado, amo muito minha família, nunca mais vou fazer isso, por favor, me deporte". Tudo dito entre mais soluços e lágrimas.
Silêncio na corte. O juiz sério. Soares se recompondo. O veredito: "Pode ser que eu esteja enganado, mas suas lágrimas e arrependimento me parecem genuínos. Vou lhe dar uma chance de sair daqui e reconstruir sua vida", disse o juiz. Fixou a pena em 18 meses, 10 dos quais já cumpridos, na prática condenando o brasileiro a oito de cadeia.
"Obrigado, muito obrigado", soluçou Soares.
O drama ainda não acabara. O réu pede ao juiz para dar um abraço no pai, única pessoa na platéia além do repórter.
O US Marshal encarregado de vigiar Soares diz que normas de segurança proíbem tal contato. O juiz pergunta "quem é o pai" ? Um homem miúdo, grisalho, com lágrimas nos olhos, se levanta. "Ok, não posso permitir o abraço, mas quero que o senhor entenda o gesto do seu filho. Tenha um bom dia".
Dito isso, Raymond Dearie encerra a sessão e sai da sala.
Pai e filho abanam um para o outro, os dois ainda chorando. Agora, se tudo for nos conformes, antes do Natal Soares será deportado.
A cena termina com o policial colocando algemas no réu, levando-o pela porta dos fundos. Do pai, ele ainda ouve uma promessa: "Vou esperar por você até o último dia. Um beijo. Deus te acompanhe, meu filho".





