Brasileiras vítimas da máfia retornam
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sábado, 14 de novembro de 1998
Andreia Maia Agência Estado 
Oito brasileiras vítimas de uma rede internacional de prostituição em Israel chegaram ontem pela manhã ao Rio. Com idades entre 19 e 34 anos, elas foram resgatadas dia 23 de outubro em uma casa de prostituição controlada pela máfia russa. Algumas desembarcaram com o rosto coberto por causa das ameaças de morte sofridas em Israel.
A polícia israelense está tentando localizar outras 12 brasileiras que estariam sendo mantidas em cárcere privado pelos mafiosos, segundo denúncia das mulheres em depoimento à Corte de Israel. Elas confirmaram que foram agenciadas no Brasil, tiveram seus passaportes retidos pela máfia, eram obrigadas a se prostituir e mantidas em cárcere privado.
Na segunda-feira à tarde as oito mulheres - todas cariocas - vão prestar depoimento na Superintendência da Polícia Federal, na Praça Mauá. Deste grupo, sete haviam viajado juntas, em meados de agosto, para trabalhar como garçonetes na capital israelense, Tel Aviv.
De acordo com a advogada das brasileiras, Cristina Leonardo, elas vão descrever o esquema da máfia e contar como souberam da morte da colega, Kelly Fernandes Martins, encontrada pela polícia israelense, mês passado. Ela teria sido espancada e obrigada a consumir drogas. A morte de Kelly revelou o esquema internacional de aliciamento de jovens brasileiras pela máfia russa e israelense.
O grupo desembarcou do vôo 647 da Alitália às 8 horas, no Aeroporto Internacional do Rio, na Ilha do Governador, na zona norte da cidade. O reencontro com a família teve muitas lágrimas. É uma dádiva estar de volta ao Brasil e rever meu filho, disse Kátia Regina Fernandes, de 19 anos, chorando abraçada ao filho Fernando, de um ano e meio.
Kátia afirmou que o sonho de ganhar dinheiro para comprar um apartamento para a família, no bairro da Abolição, no centro do Rio, tornou-se um pesadelo ao chegar a Tel Aviv, em agosto. Fui enganda e vivi os piores momentos da minha vida, disse a jovem. Ela contou que foi convidada por Rosana, identificada pela Polícia israelense como uma das aliciadores de dupla cidadania, para ganhar US$ 1.500 como garçonete. Foi um horror o que passamos lá. Kátia afirmou que vivia em cárcere junto com as outros colegas . Só podíamos sair na companhia de seguranças da máfia.
Ana Lúcia Furtado, de 34 anos, lembra que era ameaçada pelos chefões da rede quando não atendia pelo menos 15 clientes por noite. Eles diziam que nós não sairíamos vivas de lá. As ameaças, contou Ana, aumentaram depois da morte de Kelly Martins. Eles ficaram apovorados com a repercussão do caso e com as investigações das polícias israelense e brasileira. Ela negou que as colegas, inclusive Kelly, eram obrigadas a usar drogas. Não somos viciadas e não usávamos cocaína para atender os clientes, disse Ana Lúcia. A morte da Kelly por overdose foi uma mentira, afirmou. A máfia a espancou e depois eles a forçaram a cheirar cocaína.
Anteontem o grupo - a mulheres foram identificadas como Kátia Lima, Kátia Regina Fernandes, Renata, Joana, Ana Lúcia, Rosélia, Silvania e Daniela - prestaram depoimento à corte israelense sobre o esquema de aliciamento e prostituição. Elas são testemunhas de um processo que pode levar para a cadeia três israelenses e uma brasileira com dupla cidadania.


