Brasileiras fazem sequenciamento genético de bactéria
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sábado, 05 de fevereiro de 2000
por Simone Biehler Mateos 
São Paulo, 5 (AE) - Sete brasileiras, jovens e brilhantes cientistas, foram as responsáveis pela finalização, antes do prazo, do sequenciamento genético da bactéria Xylella fastidiosa, uma das principais pragas da cana-de-açúcar. A façanha tornou o Brasil o primeiro país do Hemisfério Sul a dominar as técnicas de sequenciamento genético.
Além da rede de laboratórios brasileiros responsável pelo projeto (Rede Onsa), apenas outros 14 grupos de cientistas no mundo dominam essas técnicas. São europeus, norte-americanos e japoneses. "Acho que a finalização do sequenciamento acabou a cargo de mulheres porque acabamos assumindo os grandes abacaxis que ninguém quer descascar", brinca a bióloga e geneticista Anamaria Camargo.
Essa etapa final, de juntar as peças do quebra-cabeça de pedaços de DNA já sequenciado e desvendar o que está faltando, é
segundo Anamaria, a parte do trabalho que exige mais paciência, concentração e persistência. "Se o cotidiano do cientista, geralmente, funciona com dez tentativas para cada acerto, essa etapa tem cem tentativas por acerto; só a paciência feminina para aguentar", diz ela, lembrando que os primeiros 90% do genoma (código genético) da bactéria levaram o mesmo tempo para serem sequenciados que os 10% restantes: um ano cada.
Segundo Andrew Simpson, coordenador do projeto, essa pesquisadora do Instituto Ludwig - mascote do projeto, que aos 28 anos faz pós-doutorado - foi responsável pela intuição final que permitiu juntar todas as peças do quebra-cabeça.
Já os cientistas do comitê internacional que assessora os brasileiros se surpreenderam não só com a competência das jovens cientistas, mas também com o espírito de colaboração do grupo. "Os cientistas homens são mais paranóicos", disse o belga André Goffeau.
Colaboração - A colaboração que imperou no grupo todo, composto por 161 cientistas, teve um caráter especial entre as mulheres que assumiram a etapa final. "Havia solidariedade e tolerância com os problemas tipicamente femininos, como buscar os filhos na creche ou levá-los ao médico; e o curioso é que essa aparente informalidade só ajudou o trabalho a fluir e terminar antes do prazo", conta Anamaria, lembrando que uma das pesquisadoras teve um filho no decorrer do estudo. "Ela ficou com as tarefas que podiam ser feitas em casa."
Isso foi fundamental para Marie Anne Van Sluys, geneticista brasileira de 38 anos, que chefiou um dos grupos do projeto. Ela tem três filhos, de 9, 7 e 3 anos. "O mais difícil sempre foi compatibilizar com filhos pequenos." A psiquiatra Helena Samaia, mãe de três, concorda que esse é o maior problema. Mas discorda que as mulheres sejam mais tolerantes: "As que abdicaram de ter filhos pela carreira foram os chefes mais carrascos que já tive." Com dois filhos, Helena chegou a trabalhar 18 horas por dia conciliando mestrado, consultório e plantões. "Quando fazia residência, meu marido trazia o bebê no meio da noite para eu amamentar", conta. Ela, porém, não recomenda o cotidiano de supermulher para ninguém: "Hoje, a minha prioridade é a família", diz. Por isso, ela dedica apenas 8 horas do dia ao seu doutorado sobre as causas genéticas de doenças psíquicas.


