Hamamatsu, 13 (AE-IP) - A jornalista brasileira Ana Bortz, 35, venceu no Tribunal de Justiça de Hamamatsu, província de Shizuoka, o processo de discriminação racial movido contra o japonês Takahisa Suzuki, 47, que a expulsou de sua joalheria no dia 16 de junho do ano passado, e também contra a sua mãe Hisako, por cumplicidade, por ter fixado o cartaz no estabelecimento proibindo a entrada de estrangeiros. A loja fica numa cidade com 583.150 habitantes, dos quais 16.723 são estrangeiros, sendo que desse total 10.191 são brasileiros, segundo dados da prefeitura local de setembro deste ano.
A sentença foi dada na manhã do dia 12, pelo juiz Tetsuro Soo, que condenou os acusados a pagarem uma indenização de 1.5 milhão (cerca de R$ 28 mil), por discriminação racial e danos morais. Uma hora após a audiência, o fato já era noticiado pela televisão, e em alguns jornais o fato foi manchete. Este é o primeiro caso de discriminação racial movido no Japão entre pessoas físicas.
Ana e várias pessoas que estavam no plenário só souberam que a causa foi favorável a ela, quando o seu advogado Hideyo Ogawa apertou a sua mão, pois a sentença foi lida pelo juiz de forma tão baixa, que poucos ouviram o que ele disse. Os acusados e seu advogado de defesa, Shigeharu Suzuki, não compareceram ao tribunal. Quem chegou cedo, conseguiu a senha para entrar no plenário, com capacidade para 50 pessoas, e várias outras ficaram de fora. A sessão não durou dez minutos. LEI ANTIDISCRIMINAÇÃO
A jornalista ficou feliz e surpresa com o resultado do processo judicial, pois tinha dúvidas se venceria. Pesava para ela o fato de não existir uma lei contra discriminação racial no Japão, e a possibilidade do juiz não aceitar a lei internacional que usou para aplicar a sentença, como propôs Ogawa. A sentença foi aplicada de maneira indireta, apoiada pelo Código Civil japonês. "Fiquei satisfeita pelo fato do juiz também ter considerado a discriminação racial como um problema sério. Ela deve ser combatida através de um longo processo de conscientização. O meu objetivo foi fazer com que a sociedade japonesa também deixe de tolerar este tipo de comportamento", declara Ana.
"A partir de agora pretendo lutar para que Hamamatsu faça jus ao seu lema de cidade internacional, e crie uma lei local contra a discriminação racial. Essa decisão judicial abriu um grande precedente para o Japão. Nós, brasileiros, temos que acabar com esta mentalidade de que nós somos visitas neste país, porque não se espera que um convidado peça ao seu anfitrião para arrumar a casa. A imagem difundida sobre nós é de que somos criminosos. O processo serviu para restabelecer a nossa dignidade. Espero que as vítimas de discriminação racial falem mais alto e se levantem comigo", sugere Ana.
Após a sentença, o ausente advogado Shigeharu Suzuki, concedeu uma entrevista em seu escritório para alguns jornalistas japoneses, quando disse que, pessoalmente, gostaria de conhecer a posição do Alto Tribunal de Tokyo para este caso. Não descartou a possibilidade de recorrer da sentença, já que isso depende dos acusados, que ainda não sabiam naquele momento do conteúdo da pena dada pelo juiz Soo. Suzuki teria dito também que ele gostaria de encerrar logo o caso, por ter sido difícil.
Já Ogawa chegou confiante no tribunal. "Aceitei o caso porque nunca pensei que ia perder, e ia fazer de tudo para ganhar. Através da Ana, comecei a entender que este problema era muito importante para o Japão e que era uma discriminação estampada", comenta Ogawa. REPERCUSSÃO
Muitos estavam apreensivos com a sentença, como a japonesa Fujiko Tsuchiya, 46, que saiu da cidade de Fujieda, a cerca de uma hora de Hamamatsu, e onde convive com muitos brasileiros, especialmente para ouvir a sentença do juiz. "Foi um resultado maravilhoso. Daqui para frente pode melhorar muito o relacionamento entre japoneses e estrangeiros e poderemos caminhar juntos como seres humanos", comenta Fujiko.
Outra que saiu satisfeita com a vitória de Ana foi a a americana Sarah Gitter, 45, que ministra aulas de inglês para japoneses em Hamamatsu. "Eu estava bastante excitada para saber o resultado. Isso vai trazer muita esperança para o futuro do Japão. Os japoneses estão abrindo a mente e o coração para o povo de todo o mundo", diz ela.
Atualmente vivem no Japão cerca de 230 mil brasileiros, formando a terceira maior comunidade estrangeira no país, seguidos dos chineses e coreanos. A maioria dos brasileiros é descendente de japoneses, os chamados nikkeis, e aportou no arquipélago nipônico atrás dos ienes, engrossando a onda migratória chamada por muitos de "movimento dekassegui". ATT. EDITORES: Esta matéria foi gratuitamente cedida pelo International Press. Os responsáveis pela IP pedem que, caso a matéria seja publicada por jornais brasileiros, que enviem uma cópia do impresso para o endereço: Rua Sud Menucci, 234 - Vila Mariana - São Paulo SP - CEP 04017-080.=20

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