Brasileira ganha indenização no Japão
Jornalista ganhou processo de discriminação racial contra empresário japonês que a expulsou de sua joalheria por ser estrangeira
Edvaldo Kondo
International Press
A jornalista brasileira Ana Bortz, de 35 anos, venceu no Tribunal de Justiça de Hamamatsu, província de Shizuoka, no Japão, o processo de discriminação racial movido contra o japonês Takahisa Suzuki, de 47, que a expulsou de sua joalheria no dia 16 de junho do ano passado, e também contra a sua mãe Hisako, por cumplicidade, por ter fixado o cartaz no estabelecimento proibindo a entrada de estrangeiros. A loja fica numa cidade com 583.150 habitantes, dos quais 16.723 são estrangeiros, sendo que desse total 10.191 são brasileiros.
A sentença foi dada anteontem, pelo juiz Tetsuro Soo, que condenou os acusados a pagarem uma indenização de 1.5 milhão (cerca de R$ 28 mil), por discriminação racial e danos morais. Este é o primeiro caso de discriminação racial movido no Japão entre pessoas físicas.
Os acusados e seu advogado de defesa, Shigeharu Suzuki, não compareceram ao tribunal. A sessão não durou dez minutos. -
A jornalista ficou feliz e surpresa com o resultado do processo judicial, pois tinha dúvidas se venceria. Pesava para ela o fato de não existir uma lei contra discriminação racial no Japão, e a possibilidade do juiz não aceitar a lei internacional que usou para aplicar a sentença, como propôs Ogawa. A sentença foi aplicada de maneira indireta, apoiada pelo Código Civil japonês. Fiquei satisfeita pelo fato do juiz também ter considerado a discriminação racial como um problema sério. Ela deve ser combatida através de um longo processo de conscientização. O meu objetivo foi fazer com que a sociedade japonesa também deixe de tolerar este tipo de comportamento, declara Ana.
A partir de agora pretendo lutar para que Hamamatsu faça jus ao seu lema de cidade internacional, e crie uma lei local contra a discriminação racial. Essa decisão judicial abriu um grande precedente para o Japão. Nós, brasileiros, temos que acabar com esta mentalidade de que nós somos visitas neste país, porque não se espera que um convidado peça ao seu anfitrião para arrumar a casa. A imagem difundida sobre nós é de que somos criminosos. O processo serviu para restabelecer a nossa dignidade. Espero que as vítimas de discriminação racial falem mais alto e se levantem comigo, sugere Ana.
Após a sentença, o ausente advogado Shigeharu Suzuki, concedeu uma entrevista em seu escritório para alguns jornalistas japoneses. Ele disse que, pessoalmente, gostaria de conhecer a posição do Alto Tribunal de Tokyo para este caso. Não descartou a possibilidade de recorrer da sentença. Suzuki teria dito também que ele gostaria de encerrar logo o caso, por ter sido difícil.
Aceitei o caso porque nunca pensei que ia perder, e ia fazer de tudo para ganhar. Através da Ana, comecei a entender que este problema era muito importante para o Japão e que era uma discriminação estampada, comenta Ogawa.
Atualmente vivem no Japão cerca de 230 mil brasileiros, formando a terceira maior comunidade estrangeira no país, seguidos dos chineses e coreanos. A maioria dos brasileiros é descendente de japoneses, os chamados nikkeis, e aportou no Japão, engrossando a onda migratória chamada por muitos de movimento dekassegui.





