Brasil teve presença marcante em trajetória de Rubin Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 12 (AE) - Mesmo esperada, a renúncia do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Robert Rubin, de 60 anos, provocou um mini-pânico em Wall Street, hoje (12) pela manhã. Mas o momento escolhido para a troca do comando da equipe econômica da administração Clinton não surpreendeu o presidente Fernando Henrique Cardoso. De acordo com um assessor que o acompanhou à visita aos Estados Unidos, o presidente saiu da conversa de uma hora e meia que teve com o sucessor designado de Rubin, o vice-secretário Lawrence Summers, na tarde do domingo passado, convencido de que a mudança era iminente. "É logo, uma questão de dias", disse o assessor à Agência Estado, na manhã da segunda-feira, antes de Fernando Henrique ter um encontro com Rubin, na residência do embaixador do Brasil em Washington.
No mês passado, quando esteve em Washington para participar das reuniões de primavera do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, procurou certificar-se das informações da imprensa sobre a provável sucessão no Tesouro.
Malan conhece Summers desde o final dos anos 80, quando ambos trabalharam no Banco Mundial, o ministro como diretor-executivo do Brasil e o futuro secretário do Tesouro como economista-chefe da instituição.
Embora Rubin e Summers não sejam conhecidos com especialistas em Brasil, o País teve uma presença marcante em suas trajetórias na vida pública - e não apenas por causa do papel-chave que tiveram na coordenação da estratégia de apoio internacional durante a recente crise financeira ou da primazia que o Tesouro tem, há já algum tempo, entre as agências federais americanas, na condução das relações entre os EUA e o Brasil.
No caso de Summers, um incidente famoso de sua passagem pelo Banco Mundial por pouco não frustra as ambições políticas do brilhante economista, de 44 anos. Alguns meses antes da Eco 92, a conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, realizada no Rio em meados de 1992, o então secretário do Meio Ambiente do Brasil, José Lutzemberg, escreveu uma carta irada ao presidente do Banco Mundial exigindo a demissão de Summers. O motivo foi um memorando vazado à imprensa no qual Summers discutia, em tese, a lógica econômica de se transferir as indústrias mais poluentes para os países em desenvolvimento.
O episódio azedou as relações de Summers com as organizações ambientais americanas e com seu principal arauto em Washington, o então senador do Tennessee Albert Gore Jr. e teve consequência política. Em 1993, eleito vice-presidente, Gore barrou o nome de Summers para a posição que este pleiteava: a direção do Conselho de Política Econômica da Casa Branca, um novo posto de assessoria criado pelo presidente Bill Clinton, com o mesmo status do assessor de segurança nacional, para marcar a nova ênfase que sua administração daria às questões domésticas.
Summers teve que se contentar com o cargo de sub-secretário do Tesouro para assuntos internacionais, a partir do qual iniciou sua ascensão. Mas o incidente de 1992 continuou a produzir efeitos nas relações entre Summers e Gore e necessitaram um esforço especial de aproximação entre eles depois que ficou claro, a partir do ano passado, que Rubin pretendia deixar o governo. Com Gore em campanha para suceder Clinton na Casa Branca, seu beneplácito para a nomeação de Summers para o lugar de Rubin foi buscado e obtido no início deste ano.
Rubin começou sua bem-sucedida passagem pelo serviço público ocupando o novo posto de assessoria econômica do presidente que Summers cobiçara. Um ex-banqueiro de investimentos que levantara milhões para o Partido Democrata e doara dezenas de milhares de dólares do próprio bolso, Rubin deixou sua lucrativa carreira de 26 anos no Goldamn Sachs no segundo semestre de 1992 e alistou-se como assessor econômico na campanha presidencial de Clinton, em Little Rock. Com a renúncia do ex-senador Lloyd Bentsen do Tesouro, ele assumiu o comando da equipe econômica americana em janeiro de 1995, no auge da debacle financeira provocada pelo colapso do peso mexicano, que inauguraria o novo tipo de crise global por contágio.
Para Rubin, o papel central que desempenhou na contenção dessa crise no Brasil representou o fecho de ouro de uma trajetória que, curiosamente, teve a preocupação com a economia brasileira também como ponto de partida. "A Inflação e suas Relações com o Desenvolvimento Econômico no Brasil", foi o tema da tese acadêmica que o futuro secretário do Tesouro apresentou, em abril de 1960, quando tinha 21 anos, como parte dos requisitos para concluir seu curso de economia em Harvard com louvor. O trabalho de 125 páginas, elaborada com base na literatura acadêmica, foi uma tentativa de explicar por que a inflação não impediu o desenvolvimento econômico no Brasil entre 1948 e 1958. A melhor prova de que a tese de Rubin estava correta é que o Brasil viciou-se em inflação nas três décadas seguintes e inventou até um mecanismo - a indexação - para conviver com ela.
Nesses anos todos, Rubin visitou o Brasil apenas uma vez. Esteve rapidamente em São Paulo, no final de 1995, num período em que uma confrontação entre a Casa Branca e o maioria republicana no Congresso criou dúvidas sobre a aprovação de uma lei autorizando o aumento do teto de endividamento dos EUA e colocou no ar o espectro de uma moratória americana. "É uma ironia que o senhor tenha que explicar, em sua primeira visita ao Brasil, um País que já suspendeu o pagamento de sua dívida duas vezes, que os EUA não farão uma moratória", disse-lhe um dos empresários presentes ao jantar com que foi recebido por um seleto grupo de banqueiros, empresários e formadores de opinião, na capital paulista. Para Rubin, que procurou entender como jovem por que a inflação não atrapalhou o desenvolvimento econômico do Brasil nos anos 50, não deixa também que em um de seus últimos compromissos antes de anunciar sua decisão de deixar a secretaria do Tesouro tenha sido o de receber os agradecimentos do presidente Fernando Henrique Cardoso por sua ajuda na operação internacional de apoio financeiro que teve e continuar a ter por objetivo último preservar a possibilidade aberta pelo real de que a economia brasileira cresça e se desenvolva sem inflação.





