Brasil terá acesso a telescópio de última geração a partir de amanhã
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quarta-feira, 23 de junho de 1999
Por Simone Biehler Mateos 
São Paulo, 24 (AE) - A partir de amanhã (25), os astrônomos brasileiros estarão mais perto de desvendar os segredos da formação e evolução das galáxias porque, pela primeira vez, terão acesso a imagens que estão no limite mais distante que o homem já conseguiu observar do Universo, a cerca de 13 bilhões de anos-luz da Terra. Nessa data será inaugurado oficialmente, no Havaí, o Gemini Norte, o primeiro telescópio de última geração ao qual o Brasil terá acesso porque é sócio no empreendimento, ao lado dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Chile, Austrália e Argentina.
Em 2001, os mesmos parceiros inaugurarão, no Chile, o Gemini Sul, que complementará as imagens do Gemini Norte. Localizados nos dois pontos da Terra mais propícios à observação astronômica, os telescópios irão oferecer imagens das distintas partes do Universo que podem ser observadas a partir de cada um dos dois hemisférios do planeta. Ambos estarão equipados com espelhos de oito metros de diâmetro. Até agora, os cientistas brasileiros dispunham apenas de telescópios com espelhos de 50 ou 60 centímetros e apenas um com 1,60 metro. Essa característica, associada à tecnologia óptica, que permite corrigir as distorções provocadas nas imagens pela atmosfera terrestre, iguala os Geminis aos mais potentes telescópios já construídos, todos nos mesmos pontos do planeta.
Quatro deles estão no topo do Mauna Kea, no Havaí, e três na montanha de Cerro Pachon, no Chile. O acesso a esses sete telescópios, entretanto, fica restrito a países da Europa, Estados Unidos e Japão, além do Chile, que tem direito a 10% do tempo de observação nos equipamentos instalados em seu território. Os dois telescópios representam um investimento de US$ 184 milhões, no qual o Brasil participa (por meio do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq - e do Laboratório Nacional de Astrofísica) - com 2,5%. Com isso tem direito a 14 noites de observação por ano.
"Pode parecer pouco, mas o Gemini vai ampliar imensamente as perspectivas de desenvolvimento da astronomia no Brasil pela qualidade das imagens que esses equipamentos produzem", diz Beatriz Barbuy, chefe do Departamento de Astronomia do Instituto Astronômico e Geofísico (IAG) da Universidade de São Paulo e membro do comitê internacional responsável do Projeto Gemini. A tecnologia dos dois Gemini é capaz de captar imagens no infravermelho, o que permite observar objetos com luz muito mais fraca que aqueles que são captados na faixa ótica normal: "Isso permite ver galáxias muito distantes ou planetas próximos pequenos que brilham pouco", explica Beatriz.
O infravermelho possibilita ainda o estudo das estrelas em formação. Nesse estágio, as estrelas apresenta-se sempre envolvidas em grande quantidade de poeira, que fica transparente no infravermelho. "Ao observar estrelas e galáxias que estão a 13 bilhões de anos-luz da Terra, estamos olhando o passado do Universo porque são imagens que têm essa idade", explica Beatriz. Ela lembra que o telescópio espacial Hubble (com a metade da potência do Gemini) mostrou imagens de galáxias distantes pequenas e azuis (cor típica de galáxias jovens). Isso indicaria que, provavelmente, no processo de formação das galáxias, deve ter havido muita fusão de galáxias diferentes já que galáxias mais antigas, como a nossa, são maiores. "Com o Gemini poderemos observar galáxias mais distantes e mais antigas", diz Beatriz.
Essas observações permitirão estudar a evolução química do Universo. "Já sabemos, por exemplo, que no início não havia metais, que se formam lentamente nas estrelas", diz Beatriz. A participação brasileira no Projeto Gemini dará novo impulso a uma área de pesquisa que ainda é pequena no País, mas vem crescendo em velocidade prodigiosa. Nos últimos anos, o número de astrônomos brasileiros cresceu à taxa de 10% ao ano. Em 1970, havia apenas dois doutores em astronomia no País. Em 1994 já eram 110 e hoje chegam a 220. Segundo Beatriz, cerca de cem desses doutores estão capacitados para realizar as pesquisas de vanguarda que o Gemini vai permitir.
Para capacitar os demais, o Brasil está envolvido no projeto de um outro telescópio, menos potente. Trata-se do Soar, que será construído ao lado do Gemini Sul, no Chile, por meio de uma parceria entre o Brasil e os Estados Unidos. Nesse telescópio, o Brasil está investindo U$ 14 milhões para ter acesso a 30% do tempo de observação. O investimento brasileiro ocorre pela união de esforços do CNPq, da Financiadora de Estudos e Projetos - Finep - e de várias fundações estaduais de amparo à pesquisa.
"O Gemini permite apenas pesquisa de ponta, com o Soar prepararemos nossos pesquisadores e os nossos projetos de pesquisa que depois serão aprofundados com o Gemini", explica Beatriz. Enquanto isso, a agência espacial norte-americana Nasa e a agência européia Esa trabalham num projeto de um novo Hubble com espelho de 8 metros (o atual tem espelho de 2,4 metros), ainda mais potente que o Gemini.


