Brasil tem pediatras, mas não onde mais se precisa
Sul e Sudeste têm cinco vezes mais médicos desta especialidade do que estados do Norte e Nordeste
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domingo, 27 de julho de 2025
Sul e Sudeste têm cinco vezes mais médicos desta especialidade do que estados do Norte e Nordeste
Laiz Menezes/Folhapress 

SÃO PAULO, SP - O Brasil tem uma média nacional de 94,72 pediatras para cada 100 mil habitantes de até 19 anos, mas a distribuição desses profissionais é desigual entre as regiões. Estados do Sul e Sudeste, como Rio Grande do Sul e São Paulo, e também o Distrito Federal, no Centro-Oeste, apresentam pelo menos cinco vezes mais pediatras por criança e adolescente do que estados do Norte e Nordeste, como Amapá, Amazonas, Acre, Pará e Maranhão, que são os cinco com menor cobertura. O Brasil comemora neste domingo (27) o Dia do Pediatra.
O Distrito Federal lidera com a maior proporção, registrando 258,35 pediatras para cada 100 mil habitantes de até 19 anos, considerando a população jovem estimada em 54,5 milhões. Em seguida, vêm Rio de Janeiro (147,85), Espírito Santo (140,15), São Paulo (136,08) e Rio Grande do Sul (126,03). Já o Maranhão tem a menor oferta, com apenas 27,98 pediatras para cada 100 mil crianças e adolescentes, seguido por Pará (28,74), Acre (33,35), Amazonas (37,48) e Amapá (38).
Os dados são do estudo Demografia Médica no Brasil 2025, divulgado em abril pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), que mostra que o país contava com 47.787 pediatras ativos em 2024. Apesar disso, o total de registros na especialidade chega a 51.628, pois cerca de 3.841 médicos (8% do total) possuem mais de um registro em diferentes CRMs (Conselhos Regionais de Medicina) ou unidades da Federação.
Paraná e Londrina
Em 2022, dados da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) davam conta de que o Paraná contava com 2.500 médicos desta área. Uma pesquisa no site do CRM-PR (Conselho Regional de Medicina-Paraná) apontou que a representação regional de Londrina do órgão, que atende 8 municípios, tem 293 pediatras. Londrina tem a maior parte dos profissionais (265), seguido por Cambé (15), Assaí (6), Andirá (3). Florestópolis, Porecatu, Ribeirão do Pinhal e Tamarana possuem um especialista cada um, segundo dados do CRM-PR. Ainda segundo o Conselho, do total de 265 pediatras em Londrina, 194 são mulheres e 71 são homens.
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No âmbito internacional, o Brasil supera a média de 18,05 pediatras para cada 100 mil habitantes (considerando toda a população, não só crianças e adolescentes) observada em 41 países avaliados, com uma taxa nacional de 23,53.
Além da desigualdade regional, o estudo aponta que os pediatras se concentram na rede privada, especialmente nas regiões com maior oferta, o que dificulta o acesso para quem depende do SUS (Sistema Único de Saúde).
Maioria está na rede privada
Para o pediatra Eduardo Jorge Lima, conselheiro no CFM (Conselho Federal de Medicina), o principal desafio não é a ausência de profissionais no mercado, mas a forma como estão distribuídos. "O Brasil tem um número considerável de pediatras, mas há uma concentração nos grandes centros urbanos e na rede privada, o que deixa vastas áreas do país com cobertura insuficiente", afirma.
Segundo Lima, a má distribuição se deve a fatores como vínculos empregatícios precários no SUS, falta de plano de carreira com mobilidade e condições de trabalho desfavoráveis.
Edson Liberal, presidente da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), também aponta a retirada dos pediatras da Atenção Primária à Saúde (APS) como um dos principais fatores da desigualdade. "Faz duas décadas que há um desestímulo à entrada do pediatra no setor público. Os três níveis de governo, municipal, estadual e federal, deixaram de contratar pediatras para a atenção básica, e isso impacta diretamente o acesso da população mais vulnerável ao especialista", afirma.
Segundo ele, a Estratégia de Saúde da Família, embora positiva em vários aspectos, não contempla a presença do pediatra nas equipes. "Quem pode pagar um plano de saúde escolhe o pediatra. Quem depende do SUS muitas vezes não tem essa opção", diz.
Residência médica
Felipe Proenço, secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, diz que o Ministério da Saúde reconhece a desigualdade na distribuição de pediatras pelo país e que a pasta participou do estudo Demografia Médica no Brasil para identificar os problemas no país.
Para o secretário, embora a concentração de especialistas seja maior na rede privada, isso não significa que o SUS fique sem pediatras. "A maioria dos profissionais atua tanto no sistema público quanto no privado, mas o percentual que trabalha exclusivamente na saúde privada é maior do que o que atua somente no SUS."
Entre as estratégias do Ministério da Saúde para ampliar a presença de pediatras, Proenço destaca o investimento em programas de residência médica. "O pró-residência foi criado para enfrentar essas desigualdades. Ao ser retomado em 2023, priorizou a pediatria. Todas as solicitações de novos programas ou ampliação na Amazônia Legal foram contempladas."
Métodos adaptados
Conforme recomendação da SBP, o acompanhamento pediátrico inicia-se na primeira semana de vida. Depois, as consultas são mensais até os 6 meses, trimestrais até os 18 meses, semestrais até os 4 anos, e anuais até os 18 anos. As consultas pediátricas de rotina – conhecidas como puericultura - são importantes para orientar sobre vacinas, alimentação, sono, doenças e acidentes, além de acompanhar e detectar alterações do crescimento e do desenvolvimento neuropsicomotor.

Luziana Suzuki Brambila, médica pediatra do Hospital São Francisco, de Cambé, conta que o atendimento à criança exige a adoção de métodos de avaliação adaptados, com o uso de brinquedos, por exemplo, e um tempo maior para a coleta de informações. Segundo ela, a linguagem e o comportamento usados na assistência pediátrica são cruciais para ganhar a confiança da criança.
“Devemos usar uma linguagem clara, afetiva e carinhosa, e utilizar recursos lúdicos e brinquedos para deixá-la mais confortável e segura durante a consulta, permitindo que ela expresse suas dores, sentimentos e emoções”, explica.
Crianças possuem sistemas fisiológicos em constante desenvolvimento, tornando-as mais vulneráveis a substâncias e doses de medicamentos. A capacidade de comunicação e entendimento variam com a idade. Por isso, há risco quando elas não têm acesso ao profissional médico especialista na infância. Além de doses e medicações específicas, exames de imagem, como raios-X, são usados com cautela em crianças, devido à maior suscetibilidade delas à radiação, sendo realizados apenas quando estritamente necessários e com avaliação criteriosa do médico.
“Procedimentos invasivos ou que possam causar desconforto excessivo são geralmente evitados ou modificados para minimizar o estresse e a dor, priorizando a segurança e o bem-estar da criança”, afirma Luziana.
Impacto emocional
A abordagem, o acolhimento e o atendimento na área da saúde podem impactar de maneira positiva ou muito negativa na vida da criança. A psicóloga especialista em terapia familiar sistêmica, Fernanda Barutta Pierri, afirma que muitos medos e angústias relacionados à ida ao médico ou ao hospital vêm de uma experiência traumática na infância. Segundo ela, esses sentimentos ruins relacionados à experiência passada, podem atrapalhar, inclusive, no processo de tratamento e melhora do paciente.

De acordo com Fernanda, a postura dos pais ou responsáveis também interfere no sucesso da recuperação da criança que está doente. Ela explica que um pai ou uma mãe que age de maneira natural diante do quadro de saúde, que dá a importância devida, mas sem exageros, coloca o filho ou filha numa posição mais tranquila, o que acelera a melhora. Por outro lado, quando há excessos, seja por desinteresse ou por preocupação excessiva, o tratamento pode ser prejudicado.
(Com assessoria de imprensa do Hospital São Francisco )


