Curitiba - Entre janeiro e setembro de 2003, houve aumento de 80% no número de casos registrados de trabalho escravo no Brasil, em relação ao mesmo período do ano passado. A Comissão Pastoral de Terra (CPT) contabilizou 229 casos neste ano, envolvendo 7.623 trabalhadores, contra 127 de 2002, com 5.089 pessoas. Mas a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos informou que esses números refletem apenas as situações que são denunciadas e não a situação real. Para a Organização Mundial do Trabalho, há cerca de 40 mil trabalhadores escravos no Brasil.
''Não sabemos ao certo quantas pessoas trabalham em regime de escravidão, mas é bastante superior ao que registramos por ano'', disse Ricardo Rezende, membro da Rede Social e estudioso do trabalho escravo. Ele ressalta que os dados da CPT retratam apenas a situação no campo. ''As metrópoles certamente têm grande número de vítimas, envolvendo principalmente latino-americanos, como os bolivianos, e asiáticos'', explicou.
De acordo com Rezende, os casos de escravidão aumentaram bastante de 2002 para 2003 por causa das ações governamentais. O governo federal declarou batalha contra o trabalho forçado. ''Isso motivou os fiscais a olharem com maior atenção para esse problema'', disse. Entre os problemas apontados no Relatório Direitos Humanos 2003 está o valor das multas aplicadas pelas delegacias de trabalho, consideradas muito baixas e por isso incentivadoras da reincidência.
A violência contra os índios também aumentou: de janeiro a outubro desse ano, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) registrou 22 casos de indígenas assassinados e um desaparecido. Este foi o maior índice nos últimos dez anos. No ano passado, foram sete mortes de índios.
No campo, foram assassinados 61 trabalhadores rurais entre janeiro e outubro de 2003, de acordo com a CPT. No ano passado, foram registradas 43 mortes. Segundo o relatório apresentado ontem, a impunidade é uma das principais causas dessa violência. Entre 1985 e 2002, foram registrados 1.280 assassinatos de trabalhadores e lideranças ligados à luta pela terra. Desse total, somente 121 foram levados a julgamento. Entre os mandantes dos crimes, 14 foram julgados e somente sete foram condenados. (R.F.)

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