A medicina brasileira deu ontem um passo importantíssimo para o aprimoramento técnico de seus médicos. Foi realizada pelo Hospital Sírio Libanês, de São Paulo a primeira cirurgia a distância em um hospital brasileiro, que contou com a participação de um médico norte-americano trabalhando em conjunto com os brasileiros por meio da internet.
A intervenção de varicocele (varizes na bolsa escrotal) pelo método videolaparoscopia, em que uma microcâmera de vídeo é inserida dentro do corpo do paciente, durou 20 minutos e foi considerada um sucesso por seu coordenador, o médico Nelson Rodrigues Netto Jr., professor da Unicamp. Esta foi a terceira telecirurgia no mundo e a primeira no Hemisfério Sul.
O médico Louis Kavoussi, do Hospital John Hopkins, de Baltimore, nos Estados Unidos, comandou, pela internet, um robô (braço mecânico) que monitorou uma microcâmera de vídeo inserida no corpo do paciente, definindo os pontos exatos que precisavam sofrer intervenções e efetuando a incisão e o estancamento sanguíneo após o corte; tudo através de comandos pelo computador em tempo real.
A cirurgia teve um atraso de aproximadamente uma hora por causa da dificuldade de abrir o canal de teleconferência entre o Hospital Sírio Libanês e o Gran Meliá Hotel de São Paulo onde está sendo realizado o 18º Congresso Mundial de Endourologia. Os participantes do congresso acompanharam a intervenção cirúrgica em tempo real e puderam fazer perguntas aos cirurgiões.
O paciente não teve o nome divulgado, mas tem 17 anos e a varicocele impedia o crescimento de seus testículos, o que, no futuro, poderia torná-lo infértil, segundo o médico Anuar Ibrahim Mitre, participante da cirurgia e pertence aos quadros do Hospital das Clínicas e do Sírio Libanês.
A primeira telecirurgia realizada no País foi considerada pelos médicos brasileiros como uma revolução dentro da medicina nacional por abrir a possibilidade de aprimoramento técnico dos profissionais do País. ‘‘O sistema é fantástico e poderá ser usado na formação dos nossos médicos’’ disse Rodrigues Netto Jr.
O método representa, por exemplo, a possibilidade de um médico especializar-se sem ter de necessariamente ir estudar no exterior, pois poderá ter aulas e verificar a aplicação prática da teoria através da telecirurgia. ‘‘Acho que os hospitais universitários deveriam ser os primeiros a ter acesso e incorporar o novo método’’, defendeu o coordenador.
Segundo ele, é possível que em pouco tempo o Brasil passe a adotar o sistema com maior frequência dentro das intervenções cirúrgicas pelo sistema de videolaparoscopia. ‘‘Hoje, tivemos a participação de um médico norte-americano. No futuro, a cirurgia poderá ser executada com a internação do paciente em um hospital e a presença do médico em outro’’, disse Netto Jr, referindo-se também à possibilidade de redução de custos para os pacientes que moram fora dos grandes centros e precisam se deslocar para passar por cirurgias.
A telecirurgia realizada ontem pelo Hospital Sírio Libanês contou com a comunicação de um canal de internet 2 sistema de altíssima velocidade de transmissão de dados e imagens. O hospital utilizou o canal de teleconferência que mantém para, por meio de uma linha telefônica, contatar o médico norte-americano Louis Kavoussi e abrir a comunicação pela internet.
‘‘Dos Estados Unidos, o médico pôde efetuar a cirurgia, manipulando a microcâmera, definindo a intensidade da incisão e também passando orientações aos colegas brasileiros’’, explicou Netto Jr.
Atualmente, três médicos participam das cirurgias pelo método de videolaparoscopia. Um faz as intervenções, outro se responsabiliza pela visualização interna do corpo e o último fica responsável por operar a microcâmera. Segundo o coordenador, o robô é mais preciso na manipulação da microcâmera. ‘‘Os médicos ficam horas segurando o equipamento e, é claro, depois de um período tremem um pouco e sentem dores por ficar muito tempo estáticos. O robô facilita o trabalho’’, disse.
O custo elevado do equipamento é, no entanto, o principal fator dificultador. Os médicos estimam que o preço médio cobrado pelo robô no mercado internacional seja de US$ 80 mil.

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