São Paulo, 10 (AE) - Depois do fracasso de Seattle, em dezembro do ano passado, os 135 países membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) retomam, ao final deste mês, as negociações na área de serviços e, em março, as do setor agrícola, que representam, respectivamente, 29% e 50% da mão-de-obra no mundo e 65% da produção total da riqueza mundial. Mas a partir de agora nenhum país terá mais em mãos qualquer poder de barganha ou até mesmo uma moeda de troca, como se esperava no eventual lançamento da Rodada do Milênio, disse o embaixador Celso Amorim, responsável pela representação brasileira na OMC.
Em entrevista à AGÊNCIA ESTADO, por telefone de Genebra, o embaixador afirmou que as negociações na área de serviços e do setor agrícola se transformaram em fatos imprevisíveis, já que, além das dificuldades que serão enfrentadas, sequer há possibilidade de afirmar quanto tempo demandarão essas discussões. Para a maioria dos diplomatas responsáveis por delegações, esta é a pior parte do início das negociações, que já estavam previstas desde o final da Rodada Uruguai do Gatt, em dezembro de 1994. É bom lembrar que a Rodada Uruguai levou oito anos para ser concluída.
De acordo com dados da OMC, dos quase US$ 7 trilhões do comércio de bens e serviços no mundo, US$ 500 bilhões (pouco menos de 8% do total) se referem ao comércio agrícola, e US$ 1,3 trilhão (menos de 20%) ao comércio de serviços. A meta dos países da OMC, agora, é liberalizar esses dois mercados, reduzindo as barreiras tarifárias e não tarifárias e os subsídios que provocam distorções nos preços, principalmente os dos países em desenvolvimento.
"Infelizmente teremos menos moedas de troca, razão pela qual acredito que as negociações serão mais difíceis e prolongadas", disse o embaixador Celso Amorim. Mesmo assim, acrescentou ele, o Grupo de Cairns, do qual faz parte o Brasil e outos 14 países cujas exportações dependem de produtos agrícolas
voltará a ter uma única voz e as suas propostas serão semelhantes àquelas que foram apresentadas durante a reunião ministerial da OMC em Seattle. Agora, disse ele, "temos de trabalhar com cautela para não repetir Seattle".