'Brasil precisa baratear o turismo'
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de janeiro de 1999
Arquivo FolhaLúcio Flávio Moura Especial para a Folha 
Deputado federal mais votado do Paraná nas últimas eleições, Rafael Valdomiro Greca de Macedo tem um grande desafio no melhor momento de sua carreira: brilhar à frente de um ministério de assuntos que sempre tiveram pouco importância no âmbito do governo federal.
Ao ser empossado, em 6 de janeiro, como ministro do Esporte, Turismo e Juventude, o ex-prefeito de Curitiba deu indícios que sua gestão pode mudar a tradição de obscuridade dessa pasta. Considerado o sorridente e o alegre de um governo de ministros sisudos, Greca começou sua gestão fazendo barulho. Imprensa, TV e rádio exploraram amplamente as declarações polêmicas do novo ministro sobre a relação entre o turismo e o lirismo da pobreza.
Apostando na criatividade, qualidade que projetou o seu padrinho político Jaime Lerner, Greca quer popularizar o turismo e derrotar os entraves que colocam o Brasil no modesto 38º lugar no ranking mundial do setor.
Greca respondeu com exclusividade à Folha, de Salvador (BA), por meio de fax, sobre seus planos para a macropolítica do setor e a questões mais próximas do interesse do Extremo-Oeste do Estado, região à qual já declarou amor por várias vezes, inclusive com poema.
Folha - Pesquisa da Embratur revelou que Foz do Iguaçu é a cidade brasileira mais visitada do País por estrangeiros. Ser porta de entrada do País exigirá cuidados especiais do Ministério?
Rafael Greca - Com certeza o Ministério terá uma atenção diferenciada com Foz do Iguaçu, porque sabemos que o turista bem atendido é o que passa a ser um divulgador entusiasmado das belezas da cidade. Por isso, pretendemos intensificar a ação do Ministério, em conjunto com a prefeitura e a Secretaria Estadual de Turismo, para melhorar a oferta de pacotes turísticos, principalmente na classe econômica. O próprio presidente Fernando Henrique citou Foz do Iguaçu no seu programa de rádio desta semana, ao contar que vamos iniciar uma campanha nos hotéis e pousadas para mostrar o Brasil. Vai funcionar assim: os hotéis da Bahia mostram Foz do Iguaçu; os de São Paulo mostram o Rio Grande do Sul e assim sucessivamente. Ser a porta de entrada do turista estrangeiro é uma grande responsabilidade e precisamos estar atentos para isso.
Folha - Sem representantes na Câmara Federal, Foz sempre reclamou da falta de representatividade política em Brasília. Quanto a cidade ganha por ter um paranaense e um declarado admirador das Cataratas no Ministério?
Greca - Tenho muito carinho por Foz. Como ministro, tenho a responsabilidade de trabalhar por todo o Brasil e não somente pelo Paraná. Ainda assim, devo olhar pela minha terra, porque só quem ama e conhece a sua aldeia pode se dizer universal.
Folha - Na solenidade de posse, o senhor declarou que é preciso vencer a imensidão do Brasil. O Nordeste brasileiro, distante das regiões mais desenvolvidas da América do Sul, continua expandindo seu turismo receptivo e atraindo grandes investimentos no setor. Como Foz do Iguaçu e a Costa Oeste podem usar a localização privilegiada para tornar seu turismo mais rentável?
Greca - A condição do Nordeste como destino turístico dos mais procurados do Brasil se deve, inegavelmente, às suas belezas naturais, praias, dunas e sítios históricos. Então, essa é uma condição que não podemos mudar. O que pode ser feito - e será! - é incentivar a ampliação da infra-estrutura hoteleira, de modo a poder receber mais pessoas. Como fazer isso? Primeiro, com um trabalho de estímulo ao setor e gestões junto às companhias aéreas para reduzir as tarifas, ampliando os vôos na classe econômica. Foz e a Costa Oeste têm um potencial muito grande. Eu tenho um carinho especial por essa região, pois foi aí que foi encenado o meu Poema ao Rio Iguaçu, pela Denise Stocklos.
Folha - Qual seu conceito de turista?
Greca - Cito nossa maior poetisa, a consagrada Helena Kolody: Para quem vai ao encontro do sol, é sempre madrugada. Quando deixamos o nosso cotidiano, mesmo que por pouco tempo, temos uma nova percepção da realidade. Aprendemos a valorizar nossa aldeia e ampliamos nosso horizonte cultural.
Folha - A reforma administrativa da Prefeitura de Foz do Iguaçu pôs fim à Foztur (orgão oficial de turismo do município). Até que ponto governos sem dinheiro podem comprometer o desenvolvimento turístico de uma região?
Greca - Eu tenho uma visão muito clara do papel que os governos têm na área de turismo: não se trata de gastar uma infinidade de dinheiro em divulgação, mas sim de apoiar politicamente os investimentos que devem ser feitos pela iniciativa privada. O desenvolvimento de uma região se deve primordialmente ao esforço de suas lideranças que, organizadas, têm um poder de decisão muito mais forte.
Folha - Uruguai e Argentina recebem mais turistas que o Brasil. O que podemos aprender com os nossos parceiros do Mercosul?
Greca - Certamente podemos incorporar a boa tradição dos hotéis argentinos e das estâncias uruguaias. Essencialmente, precisamos acordar para uma nova visão do turismo, mais barato. O turismo pode ser até sem luxo, mas precisa ser sempre limpo. É a categoria SL: sem luxo e sempre limpo. Em breve, vamos anunciar um programa específico para o Sul do Brasil e o Mercosul, a exemplo do que o governo já desenvolve no Nordeste e no Amazonas.
Folha - A segunda edição dos Jogos Mundiais da Natureza, programada para 2001, vai ter que tipo de incentivo do seu Ministério?
Greca - A Costa Oeste e os Jogos Mundiais da Natureza consolidaram a vocação turística da região, divulgando as belezas naturais do nosso Paraná em todo o mundo. Empreendimentos como esses serão sempre apoiados pelo governo, já que têm forte impacto positivo na economia local.
Folha - Alguns países melhoraram sua infra-estrutura esportiva e turística com megaeventos como Jogos Olímpicos e Copa do Mundo. Esta idéia pode ser aplicada no Brasil a curto prazo?
Greca - Com certeza pode e já estamos trabalhando nisso. Eu já recebi o sinal verde do presidente Fernando Henrique para os Jogos do Brasil, que vamos realizar no ano 2000. A idéia é mobilizar milhares de jovens de 12 a 17 anos, para uma série de competições olímpicas, de poesia e de gincanas culturais.
Folha - Qual será a estratégia de divulgação do Brasil como destino turístico nos próximos quatro anos?
Greca - Vamos trabalhar mais no sentido de divulgar não só nossas incontáveis belezas naturais, mas também deixar claro que o Brasil tem uma boa infra-estrutura de transporte, comunicação, hotelaria e equipamentos. Os programas de treinamento para o turismo receptivo serão intensificados, melhorando a qualidade do atendimento nos hotéis do Brasil.
Folha - Foz vive uma profunda crise no turismo de compras. O resultado é o fechamento e a reduzida taxa de ocupação nos pequenos e médios hotéis. Existirá algum programa oficial específico para este problema?
Greca - A cidade de Foz do Iguaçu e a região do Lago de Itaipu têm características próprias que as tornam locais de beleza única, como as Cataratas. Acontece que é preciso um trabalho vigoroso e coordenado com a iniciativa privada, no sentido de atrair mais turistas para ver essas belezas e, gradualmente, fazer a região deixar de depender do turismo de consumo, que ainda é muito forte.
Folha - Por que o turismo de estrangeiros no Brasil tem números tão pífios?
Greca - Veja: no ano passado, 5,5 milhões de turistas estrangeiros vieram ao Brasil, contra 2,9 milhões em 1997. Então, pelas contas da Embratur, essas pessoas deixaram no País pelo menos US$ 4,2 bilhões, quando, em 1997, gastaram US$ 2,7 bilhões. Eu não considero esses números pífios, porque a previsão era atingir esse patamar apenas no ano 2002 e já conseguimos bater essa marca, com dois anos de antecedência.
PERFIL
Nome completo: Rafael Valdomiro Greca de Macedo
Idade: 42 anos
Estado civil: Casado com Margarita Sansone Greca
Filhos: Não tem
Formação: engenheiro civil (especialista em urbanismo)
e economista
Partido: PFL


