Brasil pode ficar sem doadores de órgãos; entidade quer mudar lei
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quinta-feira, 30 de março de 2000
Por Valéria Rossi 
Brasília 31 (AE) - O Brasil pode ficar sem doadores de órgãos em dez anos. O alerta é da Associação Brasileira deTransplante de àrgãos (ABTO), com base em pesquisa feita de março a dezembro de 1998 em 20 Estados. Os transplantes foram regulamentados pela Lei nº 9.434 de 1997. A associação analisou documentos emitidos nesse período em diversas regiões. O objetivo foi verificar quantas pessoas tiveram sua carteira de habilitação ou identidade carimbadas com a frase: "não sou doador".
Em São Paulo, dos 1.118.620 documentos emitidos, 62% foram carimbados. Em Sergipe, a situação é mais preocupante. Das 95.693 carteiras de identidade emitidas, 94% foram com a frase"não sou doador".Segundo o presidente da associação, Henry de Holanda Campos, em muitos Estados foram encontrados documentos previamente carimbados, sem a autorização da pessoa. "Isso é um absurdo; se continuarmos nesse ritmo não teremos doadores nos próximos anos."
O registro está previsto no parágrafo 1.º do artigo 4.º da lei, que rege o direito das pessoas que não querem tornar-se doadoras. No caso das que pretendem doar seus órgãos, os documentos são emitidos sem o carimbo.
Campos pretende encaminhar uma proposta ao governo federal pedindo a suspensão do parágrafo que obriga a colocação do carimbo nos documentos de identificação para os não-doadores. "Esses documentos são feitos em locais inadequados, sem pessoas capacitadas para explicar a importância em ser um doador."
A proposta da ABTO é que os não-doadores procurem um centro especializado para dar essa informação. Segundo Campos, existem 20 centros de notificação e captação de doação de órgãos em todos os País. Atualmente, o Brasil tem 30 mil pessoas na fila de espera por um órgão. Só de rim, são 16 mil pacientes.
O cirurgião Walter Pereira, especialista em transplante, aprova a proposta de suspender o carimbo. Para ele, as pessoas deveriam tomar essa decisão depois de receber esclarecimentos sobre o assunto. A reportagem não conseguiu localizar o senador Lúcio Alcântara (PSDB-CE ), autor do projeto de lei. A assessoria de imprensa do senador informou que ele estava viajando.
Dificuldades - Os obstáculos para quem precisa de um órgão no Brasil são inúmeros, garante Campos. Ele disse ser muito grande a resistência das família em doar os órgãos de um parente. Outro problema é o despreparo dos médicos que, segundo Campos, são responsáveis por 40% da perda de doadores
Outra pesquisa feita pela associação mostra como esses dois fatores refletem na falta de órgãos. Em São Paulo, por exemplo, foram registradas 1.129 mortes de virtuais doadores. Desses só 260 tiveram seus órgãos doados. "Em 90% dos casos houve interferência da família ou faltou empenho médico." Para solucionar esse problema a associação vai investir em campanhas e no treinamento de pessoas, que trabalharão com os hospitais.
Perpectiva - Apesar dos inúmeros problemas, os médicos não desanimam e esperam um crescimento no número de transplantes esse ano. Essa expectativa parte dos número obtidos em 99, quando foi constatado um aumento de 30% de cirurgias, comparado a 97. Foram 109 cirurgias de coração no ano passado, contra 77, em 97.
Segundo Campos, o Sistema Nacional de Transplantes (STN)
criado em 1998 pelo governo federal, está ajudando a reverter o quadro negativo.Ele garante que com um trabalho de conscientização e a mudança do artigo da lei, o País pode mudar de vez essa situação. Desde a implantação do sistema, o governo vem destinando uma verba específica para os transplantes. No ano passado, foram R$ 365 milhões.


