Brasil pode excluir carros subsidiados de livre comércio
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terça-feira, 21 de março de 2000
Por Ariel Palacios 
Buenos Aires, 22 (AE) - O negociador especial do Brasil para o Mercosul, o embaixador José Botafogo Gonçalves, declarou em Buenos Aires que o sistema de subsídios aplicado por estados brasileiros e argentinos não é bom para nenhum dos dois países. O embaixador afirmou que o governo brasileiro está pensando em excluir do livre comércio os automóveis que sejam montados em fábricas subsidiadas.
No entanto, o negociador brasileiro afirmou que esta posição somente seria válida para futuros subsídios, e não para os que já foram realizados. O embaixador também recusou diversas propostas surgidas entre políticos e economistas argentinos de que o Mercosul teria que "dar marcha a ré", e talvez retroceder de uma união aduaneira imperfeita para uma zona de livre comércio: "o Brasil não contempla esse retrocesso, nem contribuirá para ele. Se for uma decisão soberana da Argentina, não podemos fazer nada", disse.
Botafogo também afirmou que no caso de um retrocesso, "o Brasil seria prejudicado, mas a Argentina, muito mais". Botafogo Gonçalves está na capital argentina para negociar o regime automotivo comum do Mercosul, além de discutir outros conflitos comerciais pendentes entre o Brasil e a Argentina. A lista inclui as pendências sobre os frangos, suínos, lácteos e têxteis. Ele afirmou que o governo brasileiro não descarta as negociações setoriais para resolver esses conflitos.
O embaixador declarou que o Brasil está disposto a discutir um "comércio administrado" para setores atingidos na economia argentina, mas que não aceitaria proteções alfandegárias. "Isso seria retroceder", disse Botafogo, que retrucou as especulações argentinas sobre uma nova desvalorização do real: "o Brasil não tem por que pagar os custos da decisão argentina de não desvalorizar".
Botafogo Gonçalves também rechaçou a proposta do chefe do gabinete de ministros, Rodolfo Terragno, de que o Mercosul estabelecesse uma cláusula de compensações automáticas para o caso de uma desvalorização do real. Segundo o embaixador, "essa colocação é inaceitável". Botafogo Gonçalves disse que "a discussão interna na Argentina de que o Brasil vai desvalorizar outra vez é contrária a todas as evidências". O negociador brasileiro definiu como "falta de solidariedade" essas especulações.
O vice-presidente da República, Carlos "Chacho" álvarez, declarou aos correspondentes brasileiros em Buenos Aires que "o temor sobre a desvalorização do real não deve ser agitado, porque isso complica o Brasil". álvarez tirou a validade das declarações de Terragno, e disse que "no governo argentino, não vamos falar publicamente sobre essa possibilidade".
Segundo o vice-presidente, "temos que ser cautelosos porque isso pode se tornar uma profecia auto-cumprida. Alguns analistas internacionais falaram sobre uma nova desvalorização do real. A chancelaria argentina está tomando precauções, mas não se pode falar toda hora que o Brasil vai desvalorizar".
"Chacho" álvarez rechaçou declarações de empresários e políticos locais de que a crise argentina foi causada pela desvalorização do real, e afirmou que "o problema da competitividade é totalmente argentina, e o Brasil não tem culpa". álvarez também relativizou o denominado "êxodo" de empresas argentinas ao Brasil, sustentando que "somente foram embora 24 indústrias. Isso tem um impacto econômico relativo, mas o impacto maior é o simbólico, ainda mais em uma época como esta onde existe recessão".
Segundo o vice-presidente, o Mercosul deveria acelerar a institucionalização de suas regras internas, e "não deixar mais a solução de seus problemas em ligações telefônicas presidenciais". Segundo ele, é preciso apressar a construção de um "Maastricht para o Mercosul", e ir para "uma convergência macroeconômica e cambial".


