Brasil pesquisa gene das células do crânio
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domingo, 14 de janeiro de 2001
Simone Biehler Mateos Agência Estado 
Usando uma cobaia transgênica desenvolvida no País (um camundongo), uma cientista brasileira identificou a região exata de um gene humano que regula o desenvolvimento das células do crânio. Em poucos meses, ela espera localizar a região que controla a formação das válvulas cardíacas. As duas descobertas devem facilitar o desenvolvimento de formas de diagnóstico precoce e de tratamento de terapias de má formações congênitas: as cardíacas e as que fazem os bebês nascerem com o crânio já fechado, problema que causa retardo mental.
Sabendo onde essas funções estão no gene, podemos rastrear as mutações que causam essas doenças e até tratá-las, injetando o gene correto no embrião, quando um ultra-som mostrar a anomalia, explica Eliana Abedelhais, responsável pelo estudo. Ela é física especialista em biologia molecular no Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, em 1999, criou a primeira cobaia transgênica brasileira para pesquisar o desenvolvimento embrionário.
Eliana considera uma grande conquista a produção do primeiro primata transgênico, o macaco Rhesus, anunciada sexta-feira por cientistas norte-americanos: Se pudermos introduzir em um Rhesus genes de doenças que são únicas do homem, certamente a terapia que funcionar nele funcionará em nós também.
Para estudar um dos genes humanos reguladores do crescimento embrionário, ela o introduziu no DNA de um óvulo de camundongo. Antes, associou o gene a outro que confere cor às células: Fiz isso para rastrear facilmente em quais tecidos o gene se expressava. Foi assim que descobri que controlava o desenvolvimento dos membros, do crânio e das válvulas cardíacas.
O embrião transgênico foi implantado em um camundongo fêmea, deixando-o desenvolver-se durante algum tempo e retirando-o para analisar suas células. A operação foi repetida introduzindo diferentes pedaços do gene de cada vez para verificar qual região controlava o desenvolvimento de partes do corpo: Comecei com 5 mil pares de bases e fragmentei o gene até descobrir as 10 que controlam o crescimento da cabeça, explica Eliana, contando que está quase concluindo a localização da região controladora da formação das válvulas cardíacas.
Sua pesquisa possibilitou um grande avanço do Brasil no domínio das técnicas de transgenia em camundongos. Agora, ela trabalha para que isso possa beneficiar pesquisadores de outras áreas que dependem de cobaias importadas. Eliana está trabalhando com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para desenvolver modelos de animais de experimentação. Em dois ou três anos, espera ser capaz de produzir em grande escala as primeiras linhagens de cobaias transgências nacionais.
A Fiocruz mantém um centro de criação de cobaias não transgênicas que, além de milhares de roedores (camundongos, ratos e e coelhos), cria macacos do tipo Rhesus (342 indivíduos), Cynomogus (62) e Saimiri, o mico-de-cheiro (51). Entre as pesquisas nas quais os Rhesus brasileiros estão sendo usados está o teste de uma vacina contra febre amarela e estudos sobre o desenvolvimento da hepatite C, leishmaniose, dengue e doença de Chagas.
Com alguns cuidados básicos, esses animais vivem e reproduzem-se muito bem em cativeiro, garante o veterinário Antonio Mota Marinho, especialista em primatas da Fiocruz. Mantemos jaulas de grupos familiares com cerca de 20 indivíduos e fornecemos, inclusive, brinquedos para eles se distraírem, conclui.


