Brasília, 17 (AE) - Em 500 anos o Brasil perdeu 37% de três de seus principais ecossistemas. Desde a chegada de Pedro álvares Cabral até agora foram destruídos 93% da Mata Atlântica, 50% do cerrado e 15% da Amazônia, num total de 2.750 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente a mais de dez vezes o tamanho do Estado de São Paulo. O levantamento, feito pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), mostra que, apesar da modernização, as práticas de devastação no País continuam semelhantes às dos últimos séculos.
Os colonizadores também foram os primeiros devastadores do ecossistema brasileiro. Os primeiros registros sobre o assunto são de 1531, apesar de, poucos anos após o descobrimento
navegantes europeus começarem a exploração do pau-brasil. Mas partiu de Martin Afonso de Souza, durante uma expedição, a primeira iniciativa que se tornaria um grande desastre ecológico. Ele mandou queimar uma ilha inteira - que ninguém sabe onde era - por causa de seu vento quente. Ele acreditava que isso poderia provocar febre em seu grupo.
"Quando os portugueses aqui chegaram encontraram a floresta exuberante, uma quantidade imensa de água como nunca tinham visto", conta Garo Batmanian, secretário-executivo do WWF. "A partir disso, se criou o mito de que nesta terra tudo que se planta dá e que não era preciso adaptar a tecnologia européia à realidade local", acrescenta Batmanian, explicando que o resultado foi o início da devastação da Mata Atlântica.
Entre os séculos 16 e 17 se acentuou, além da retirada de madeira, a atividade canavieira, que se estabeleceu no Nordeste e Sudeste do Brasil. Como ainda acontece até hoje, o método utilizado era a coivara (queima e plantio itinerante na floresta tropical). "A adoção das queimadas para o estabelecimento de grandes áreas de monocultura, no entanto, teve um impacto ambiental imensamente superior a qualquer processo adotado anteriormente pelos povos indígenas", avalia o documento do WWF.
Segundo Batmanian a Mata Atlântica começou a ser destruída não apenas para abrir espaços para os canaviais, mas também para alimentar as construções dos engenhos e as fornalhas da indústria do açúcar requeria. "Neste período, ainda, o pau-brasil começou a ser extinto e o porto de São Vicente (SP) foi destruído pelo assoreamento em razão da devastação das matas", afirmou o secretário-executivo do WWF.
No século 18 , a frente de exploração da economia brasileira era a mineração do ouro e de diamantes, um setor que acelerou a degradação ambiental, principalmente nos rios, que muitas vezes tiveram seus cursos desviados. "A estimativa é de que 100 toneladas de mercúrio foram usadas para extrair ouro em Minas Gerais", diz Garo Batmanian. "A lama dos garimpos soterrava as próprias minas", acrescenta. Ele afirma ainda que a cana-de-açúcar também continua participando do processo de degradação."Para fazer cada quilo de açúcar eram necessários 15 quilos de lenha da Mata Atlântica."
O século seguinte foi marcado pela expansão da lavoura cafeeira, que voltou a exercer um forte impacto sobre a Mata Atlântica. As florestas do Vale do Paraíba foram todas destruídas, já que o café antes plantado em áreas sombrias começou a ser cultivado em espaços abertos e desflorestados. No final do século 19, o agrônomo francês M.R. Lezé já previa um desastre ao constatar que, para cada hectare de lavoura de café, de cinco a dez hectares eram queimados sem controle.No final do século 19, com a decadência do café, começou a exploração da pecuária, que acabou degradando ainda mais o meio ambiente.
O levantamento do WWF divide o século 20 em duas partes. No início, o maior problema ambiental surgiu pelo aumento populacional e a industrialização. Os recursos naturais foram sendo consumidos de todas as formas. A Estrada de Ferro Paulista chegou a transportar por ano, de 1916 a 1920, cerca de 30 mil toneladas de lenha, fora a madeira que alimentava as locomotivas. A indústria siderúrgica consumia 4,5 metros cúbicos de lenha para cada tonelada de ferro-gusa produzido.
Na segunda parte deste século a degradação ambiental foi acentuada pela expansão da fronteira agropecuária, afetando novamente a Mata Atlântica e a Amazônia. Atualmente, segundo dados do WWF, cerca de 180 mil quilômetros quadrados no Norte do País estão desmatados e abandonados. No Sudeste, a maior vítima, além da Mata Atlântica, foi a Mata de Araucárias, que tinha 16 milhões de hectares em 1900, foi reduzida para 7,8 milhões em 1950, e hoje não passa de 3 milhões de hectares.

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