Brasil perde a lucidez de Barbosa Lima
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domingo, 16 de julho de 2000
Agência Estado Do Rio de Janeiro 
O jornalista Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), morreu ontem de manhã, aos 103 anos. Ele estava internado no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) da Casa de Saúde São José, no Humaitá, na zona sul, desde a última quinta-feira, e apresentava um quadro de infecção generalizada, insuficiência renal e problemas circulatórios e respiratórios.
O corpo de Barbosa Lima está sendo velado no Salão dos Poetas Românticos da Academia Brasileira de Letras (ABL), onde ele ocupava a cadeira de número 6, cujo patrono é Casimiro de Abreu. No caixão foram colocadas rosas vermelhas e a bandeira do Fluminense, seu clube de coração. O governador em exercício, Sérgio Cabral Filho, decretou luto oficial de três dias no Estado. O enterro será hoje, às 11 horas, no mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, na zona sul. Boletim médico assinado pelo chefe do CTI da clínica, Fábio Guimarães de Miranda, informou que a morte foi às 10h55 e que o estado de saúde de Barbosa se deteriorou de forma rápida, com quadro infeccioso evoluindo para falência orgânica generalizada desde sábado à noite, sem que houvesse qualquer sinal de melhora a todas as medidas terapêuticas executadas.
Na sexta-feira, um de seus filhos, o também jornalista Fernando Barbosa Lima, disse que ele estava lúcido e indignado com a internação. A decisão de levá-lo para a Casa de Saúde São José foi de seu médico particular, o geriatra Carlos Paixão, e foi tomada após o agravamento das dificuldades respiratórias que sentia desde o dia 11.
Fernando contou que, assim que o pai começou a sentir mais dificuldade para respirar, no fim da tarde de quinta-feira, a família tentou usar um nebulizador para socorrê-lo, sem sucesso. Os médicos alertaram que a falta de ar causou um reflexo geral no organismo.
Segundo Fernando, seu pai costumava se queixar de ser velho demais e dizia que deveria ter morrido aos 80 anos. Então nós dizíamos: se você tivesse morrido com 80 anos, não teria derrubado o Collor, lutado contra as privatizações nem feito muitas outras coisas, contou. E ele respondia: então eu deveria ter morrido com 90 anos.
Problemas Em julho do ano passado, Barbosa foi internado na Casa de Saúde São José por causa de problemas respiratórios. Em novembro do mesmo ano, ele voltou a se internar depois de fraturar o fêmur da perna direita em um acidente dentro de sua casa, em Botafogo, na zona sul do Rio, onde morava com a mulher, Maria José, um enfermeiro e uma empregada. Na ocasião, ele foi submetido a uma cirurgia de duas horas.
Ontem, o Jornal do Brasil publicou o último artigo de Barbosa. Intitulado A exclusão da classe média. Nele, o jornalista falava sobre as agruras da classe média diante da crise econômica brasileira - que, nas palavras dele, vem desde o golpe de 1964, marcada por confiscos e desilusões. No texto, ele criticou o governo Fernando Henrique. Não se pode contar com o atual governo, não só por sua falta de sensibilidade, como também pelo fato de ser ele, o governo, o principal foco de desestabilização econômico-social, escreveu.


