Brasil, o país mais miscigenado do mundo
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de novembro de 2000
Mary Persia de Oliveira Agência Estado De São Paulo 
O Brasil é um país de mistura racial sem paralelo no mundo. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 1997 mostram, com base em declarações espontâneas, que a população brasileira é formada basicamente por brancos (54%) e negros e descendentes de negros (45%).
A despeito dessa miscigenação, ou por causa dela, o País perpetua um regime racista que, escondido sob o mito da democracia racial, aparenta ser suave ou mesmo não existir. E, se não se mostra abertamente, torna-se difícil de ser combatido. Dizer que somos brasileiros, somos miscigenados e não temos racismo é a forma mais fácil de manter a situação como está, diz a historiadora Maria Aparecida da Silva, coordenadora do Geledés - Instituto da Mulher Negra, em São Paulo.
Sempre houve um discurso hipócrita, analisa Milton Santos, doutor em Geografia, bacharel em Direito e professor emérito da Universidade de São Paulo (USP). A sociedade se comporta de maneira dual, diz o geógrafo, com palavras moralistas e ações violentas. Uma mania que pode ter sido fortalecida pela própria frustração dos brancos eugenistas do passado.
Até o começo do século 20, eram comuns discussões acaloradas acerca do tempo que levaria para o Brasil tornar-se um país branco. O embranquecimento, entretanto, não aconteceu como o esperado. A cara da população brasileira era e continuaria sendo miscigenada, com forte presença do negro. O início do século 20, principalmente a partir da década de 20, foi uma época de intensa preocupação com a construção da identidade nacional, e seria impossível falar do povo brasileiro sem citar a presença africana.
Gilberto Freyre, na década de 30, citou. Mas pintou um quadro melhor do que a realidade, alertam estudiosos. Seu livro Casa Grande & Senzala, lançado em 1933, explicava a intensa miscigenação brasileira pelas relações brandas e próximas entre senhor e escrava. Maria Helena Machado, professora do Departamento de História da USP, afirma que foi justamente o contrário: A mistura de raças foi fruto de violência sexual. Quando o sexo era consentido pela escrava e raras vezes foi assim era por uma estratégia de sobrevivência.
Dulce Pereira, presidente da Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura, explica que vem dessa época o mito da democracia racial, uma espécie de se não pode vencê-lo, finja que está juntando-se a ele. Começou-se a dizer que quanto mais miscigenado, melhor. Foi uma saída nacionalista fantástica.
Petrônio José Domingues, coordenador do Núcleo de Consciência Negra da USP, acrescenta que realmente havia uma certa aquiescência das classes dominantes em relação à mistura racial. Mas não por aceitarem um povo miscigenado, e sim porque a mestiçagem era vista como uma etapa anterior ao
embranquecimento. O sonho do Brasil de se ver como um país branco continuaria, mas não se mostraria mais abertamente.
Com um racismo velado, os negros hoje ainda encontram dificuldades para conquistar seu espaço na sociedade. A taxa de analfabetismo, por exemplo, entre negros é de 22%, enquanto entre brancos fica em 9% (dados do IBGE).
Mas, aos poucos, sua situação está melhorando. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), hoje eles são um terço da classe média do País. Contemporâneo à sua subida na escala social, o aumento do seu espaço na mídia denuncia o interesse das indústrias de vários setores em conquistar esse público. Dos produtos segmentados como camisetas, publicações e cosméticos aos tradicionais que utilizam atores e modelos negros em suas propagandas, o consumidor negro vem sendo cada vez mais valorizado. O negro está começando a ser visto como sujeito, não como objeto, analisa Domingues, mas ainda há uma visão estereotipada sobre ele.
No entanto, mesmo com a ascensão social e econômica, estudiosos acreditam que falta muito para o negro ser respeitado como cidadão. Mercado não tem nada a ver com cidadania, combate Milton Santos. O racismo ainda é muito forte, reitera o professor Guimarães, que aponta uma incongruência da sociedade brasileira: a coexistência da idéia de democracia racial e de uma lei contra o racismo. Isso prova que ele existe e é concreto.
Para que o negro seja definitivamente incluído na sociedade brasileira, Dulce Pereira afirma que são necessárias mudanças profundas. É preciso que o País entenda seu multiculturalismo e incentive a participação do negro em seu desenvolvimento.


