Buenos Aires, 22 (AE-AP) - O Brasil acha inaceitável dar compensações à Argentina por causa da desvalorização do real.
O recado foi dado, em Buenos Aires, pelo embaixador do Brasil no Mercosul, José Botafogo Gonçalves. Ele chegou hoje (22) à Argentina para manter reuniões, até sexta-feira, na Chancelaria.
O comentário foi uma resposta de Brasília a alguns membros do governo do presidente Fernando de la Rúa. O aviso se estendeu ainda à oposição, entrincheirada no Partido Justicialista, e que hoje tem à frente Carlos Ruckauf, o governador da província de Buenos Aires.
Ruckauf não poupa críticas aos governadores dos Estados brasileiros que, com suas políticas de subsídios, têm conseguido atrair empresas argentinas para o Brasil.
A nova rodada de negociações entre os dois países tenta dirimir as tensões existentes em vários setores e avançar na questão do regime automotivo.Jornais argentinos publicaram hoje as opiniões de Botafogo sobre o assunto.
Para o embaixador brasileiro, o acordo do Mercosul não prevê compensações para o caso do impacto comercial da desvalorização da moeda. Ao jornal Clarín, Botafogo Gonçalves disse que o real teve de ser desvalorizado em janeiro do ano passado.
"Em todo esse período as autoridades monetárias argentinas tiveram uma clara manifestação de ceticismo com relação à política cambial brasileira", disse o embaixador, numa referência ao governo do ex-presidente Carlos Menem.
A concessão de compensações tinha sido sugerida na segunda-feira pelo chefe de Gabinete do governo, Rodolfo Terragno. Sua proposta encontra eco na do governador peronista Ruckauf mas não na Casa Rosada, já que De la Rúa descarta essa possibilidade e propõe avançar na solução dos conflitos.
Para Botafogo, o que o Brasil propõe é sentar com os argentinos e examinar os atuais problemas surgidos nos setores mais sensíveis "na busca de uma fórmula de entendimento". Além da questão automotiva, as discussões nesses três dias incluem os setores de alimentos, sapatos, têxtil, papel e aço, entre outros.
Otimista - O vice-presidente da Argentina, Carlos "Chacho" Alvarez, disse, antes de entrar na reunião, que Ruckauf dirige uma província que destina ao Brasil 40% de suas exportações.
"Eu entendo a preocupação dele", comentou. Ele acha, contudo
que os problemas não colocam o Mercosul em risco. "Dá para defender o bloco comercial e os interesses de alguns setores." Para o vice-presidente, é preciso harmonizar a macroeconomia do bloco subregional.
O secretário de Relações Internacionais da chancelaria argentina, Horacio Chighizola, bateu duro. Disse que não vai se somar à "pirotecnia verbal" do embaixador Botafogo Gonçalves.
Para ele, as recentes opiniões emitidas por funcionários do gabinete de De la Rúa "são debates feitos por meio dos jornais". Chighizola disse que Botafogo Gonçalves é "um homem da política". E mais: "tenho de respeitar seu espaço".

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