Brasil não tem pressa em fechar acordo com UE, diz Dauster Suely Caldas
Rio, 24 (AE) - Embaixador brasileiro na União Européia (UE) durante sete anos - trocou o posto pela presidência da Vale do Rio Doce em março -, o diplomata Jório Dauster diz que "o Brasil não tem pressa em concluir um acordo de livre comércio entre Mercosul e UE", mas só iniciar a discussão em 2001. Ele reconhece que essa reunião não levará os países europeus a retirar os elevados subsídios que sustentam sua agricultura, impedem a entrada de nossos produtos na Europa e criam competição desleal em outros mercados. E explica que os países do Mercosul têm tempo, porque a eles interessa concluir esse acordo só em 2005, quando deve começar a vigorar a área de Livre Comércio das Américas (Alca), que inclui os Estados Unidos, maior concorrente da Europa na venda de produtos para a América Latina.
"Além disso, não convém acelerar essa discussão, porque precisamos de tempo para estruturar nossas economias", argumentou o ex-embaixador em entrevista à AGÊNCIA ESTADO, por telefone, de Dusseldorf, na Alemanha, onde foi negociar parcerias para a Vale com empresas européias. E por que o Brasil insistiu tanto em derrubar o veto da França que excluia a agricultura da discussão da Cimeira? Dauster responde que "não poderia ficar de fora tema tão relevante na discussão de criação de uma zona de livre comércio". Mas avisa aos representantes europeus na Cimeira que os países do Mercosul "não aceitarão começar a aplicar um acordo sobre serviços e manufaturas se não for aplicado, ao mesmo tempo, um acordo sobre agricultura".
AGÊNCIA ESTADO - Para o Mercosul, qual a real dimensão do recuo da França em aceitar discutir o protecionismo agrícola europeu na Cimeira?
Jório Dauster - Foi um avanço, fruto do convencimento não só dos próprios parceiros da França na UE, mas também da posição firme tomada pelo governo brasileiro, de que não há conversa possível se não entrar a agricultura. A clareza da posição do Brasil e do Mercosul foi também um fator importante.
AE - Mas não haverá decisões. O mandato dado pela UE não foi no sentido de organizar a discussão que começa em 2001?
Dauster - O Brasil nunca teve pressa. Se na reunião de Miami ficou estabelecido o ano de 2005 para o possível início da aplicação da Alca (área de Livre Comércio das Américas, que inclui os EUA), não há razão para iniciar já o entendimento com a UE. Queremos dar encaminhamento paralelo às duas discussões, mesmo porque precisamos de tempo para estruturar nossas economias. Começar em 2001 uma negociação que só terá efeito em 2005 é mais do que suficiente.
AE - Se não há pressa, por que insistir na discussão do tema nessa Cimeira?
Dauster - Discutir virou uma questão de princípio, fundamental nesse momento. Numa negociação de zona de livre comércio tem de entrar todos os setores, e a agricultura não poderia ficar excluida. Mas para essa negociação futura, o governo brasileiro e o Mercosul também já deixaram claro, para Europa e os EUA, que interessa um pacote único. Ou seja, só considerar decidido alguma coisa quando tudo estiver decidido. Não vamos aceitar começar a aplicar um acordo sobre serviços ou manufaturas se não for aplicado, ao mesmo tempo, um acordo sobre agricultura. É claro que nesse contexto, como em qualquer negociação, haverá troca. Como será a gradação das concessões é questão de política a ser discutida mais à frente.
AE - O fato é que nem os EUA nem a Europa têm interesse em deixar de fora um mercado como o Mercosul, cujo PIB já ultrapassa US$ 1 trilhão. Isso é o que importa?
Dauster - É um mercado com potencial extraordinário. Por isso é que existe interesse de ambos na negociação. É claro que cada um deles, digamos, poderia até viver sem um acordo com o Mercosul. Mas cada um, individualmente, teria dificuldades de viver havendo um acordo com o outro. É aí que mora o problema. A UE já viu isso na carne, depois que o México fez acordo com os EUA, no Nafta (bloco dos EUA, do Canadá e México). Tiveram uma perda brutal de vendas para o mercado mexicano.
AE - Os países latino-americanos estão articulados, preparados e unidos para enfrentar essa discussão?
Dauster - São coisas diferentes. Os países latinoamericanos, em geral, e os do Caribe, já estão empenhados em outra negociação conjunta, que é a da Alca. Na Alca estão todos sentados numa única mesa. Nessa Cimeira é diferente, porque a Europa adota outro método - segmenta mercados e mantém encontros que chama de diálogos, pondo em fóruns diferentes de discussão os países América Latina e do Caribe. Para cada grupo de países há um diálogo. No Rio, vamos criar o diálogo Mercosul-UE. Aliás, Mercosul mais Chile, porque a Europa tende a ver o Chile como parte do espaço geográfico do Cone Sul. Portanto, é uma negociação diferente da Alca, onde Brasil e Mercosul entram no mesmo bloco de AL e Caribe, embora o Mercosul faça questão de salvaguardar sua posição de negociar à parte.
AE - E como será no Rio?
Dauster - Na verdade, são duas Cimeiras. A primeira é da UE, com toda a América Latina e Caribe mais Cuba - que não está na Alca. Nesse caso, nunca se pensou em negociação conjunta. A UE tem relação comercial específica com os países do Caribe, que são ex-colônias. Tem outra com América Central, uma terceira relação com os países da comunidade Andina, uma quarta com o México e uma quinta com Mercosul mais Chile, que gostaria de ver unificados. É diferente da Alca, onde todos estão na mesma mesa. Nas duas, qualquer que seja o processo negociador, há um terceiro fórum, onde a maioria desses países está presente, que é a Organização Mundial do Comércio (OMC).
AE - A decisão européia é mesmo pra valer? Não seria um jogo de cena para amarrar nossos países, não deixá-los nas mãos apenas dos EUA e, ao mesmo tempo, adiar a discussão sobre agricultura?
Dauster - Veja, 2001 não é futuro distante. Além disso, haverá o início de uma negociação coletiva sobre agricultura na OMC, marcada desde a rodada do Uruguai, quando todos nós, países em desenvolvimento, dissemos que os avanços obtidos nessa questão foram insatisfatórios. Depois, surgiu a idéia de uma negociação mais ampla, na chamada Rodada do Milênio. Vamos concentrar na parte agrícola. Como haverá, na Rodada do Milênio, uma reunião ministerial da OMC para definir como será o início da negociação, as propostas agrícolas coletivas devem estar apresentadas até 2000. E aí começa efetivamente a negociação. Então, a França vetou porque entendeu que entraria numa negociação prévia com o Mercosul.
AE - E os lobbies políticos dos agricultores franceses saíram derrotados agora?
Dauster - Isso é normal. O que importa é que no Brasil e no Mercosul já existem grupos de opinião. Houve um protesto forte da sociedade e do governo brasileiro. Isso é demonstração de maturidade.
AE - A Europa acusa o Mercosul de impor barreiras a produtos industriais. É verdade?
Dauster - Eles não têm do que se queixar. Veja um fato definitivo: entre 90 e 97, a Europa expandiu em 350% suas vendas para o Mercosul, enquanto nossas exportações para lá cresceram só 24%. Não aplicamos tarifas acima do que foi negociado. Eles nos acusam de aplicar certas medidas, como pagamento prévio de importação.
AE - O que pode resultar da Cimeira do Rio?
Dauster - A discussão envolve outros temas, não só comércio. A do Rio tem importância estratégica, porque os EUA já fizeram duas Cimeiras, a de Miami e a de Santiago, com todos os países da região, à exceção de Cuba. A Europa fez duas na ásia, tem outra, marcada para 2000, com a áfrica, e nenhuma com América Latina e Caribe. Era um vazio que começa a ser preenchido. Serão discutidas também questões políticas, como democracia e direitos humanos, temas que a Europa não pode desenvolver, por exemplo, com a ásia, porque os valores lá são diferentes dos europeus. Na Cimeira Mercosul-UE existe uma vertente política que não existe na Alca.
AE - A Europa tem um mercado preferencial com países latinoamericanos que combatem o narcotráfico, que não inclui os do Mercosul. Como isso será tratado?
Dauster - Isso o governo brasileiro combate e protesta por considerar um instrumento de discriminação comercial que prejudica setores industriais, entre eles o café solúvel. Mas isso é uma questão a ser resolvida também nas negociações.





