Londrina - Dez anos depois da morte da missionária Dorothy Stang, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking de países líderes em violência contra ativistas agrários e de meio ambiente. Relatório da ONG britânica Global Witness, divulgado ontem, aponta que de 116 assassinatos contabilizados no ano passado em 17 países, 29 ocorreram no Brasil, o equivalente a um quarto das mortes. O país fica à frente da Colômbia, com 25 ativistas assassinados, e Honduras, com 12. Em toda a América Latina, foram 87 vítimas em 2014.
Segundo a organização, pelo menos 40% dos ativistas mortos faziam parte de grupos indígenas envolvidos com o estabelecimento de usinas hidrelétricas em suas regiões. Dez por cento dos assassinatos estavam ligados a conflitos por exploração florestal, 14% a enfrentamentos envolvendo o agrobusiness, 14% água e barragens e 21% mineração.
Secretário-executivo do Fórum do Movimento Ambientalista do Paraná, o ativista Juliano Bueno de Araújo analisa que os dados mostram a insegurança a que a categoria está submetida no país. Para contextualizar isso, ele cita o assassinato de um dos ambientalistas de maior representatividade no Estado, Jorge Grando, numa chacina em Piraquara, em 2011. Grando trabalhava com uma organização de preservação do leito do Rio Iguaçu. Na época, foram mortos no mesmo episódio outros quatro ambientalistas. "O crime até hoje não foi solucionado. Todos os ambientalistas do Brasil deveriam andar com colete à prova de balas. Quando encaminhamos denúncia ao Ministério Público, não temos segurança depois", diz.
A situação, avalia, chega a deprimir quem exerce este tipo de papel. Na Região Sul, conforme ele, o Paraná é o estado que mais registrou mortes nos últimos 30 anos. Ao todo, foram 14 vítimas. Recentemente, três casais precisaram se mudar por conta de ameaças de morte recebidas após levantarem informações contrárias a interesses locais. Na opinião de Araújo, o cenário para ativistas brasileiros só deve ser melhor quando existirem leis e instrumentos públicos que tragam segurança aos denunciantes. "Quem age com agressão a essas pessoas tenta silenciar os que querem defender a vida de todos", lamenta.

VULNERABILIDADE
Uma das coordenadoras nacionais da Comissão da Pastoral da Terra (CPT), Jeane Belinni, também considera que os ativistas, sejam eles ambientalistas ou envolvidos com questões agrárias, estão vulneráveis no país. De 1,7 mil assassinatos registrados em três décadas, somente 108 tiveram seus autores respondendo na Justiça. A maioria envolve disputas de terra. "O programa de proteção a ameaçados é insuficiente para ajudar estas pessoas. Às vezes, elas ficam na fila por meses, esperando proteção. Também precisamos que haja conclusão dos inquéritos e que os envolvidos sejam condenados, para que a impunidade seja menor", assinala Jeane.
Além do caso da missionária Dorothy Stang, as situações mais emblemáticas foram as mortes do ambientalista Chico Mendes, no Acre, em 1988 e que procovou intensa repercussão internacional, e a do casal de extrativistas José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, no Pará, em 2011.
Os mandantes do crime de Dorothy ainda permanecem soltos. A missionária, assassinada a mando de fazendeiros e madeireiros, esteve em Brasília, em 2004, por mais de uma vez, oferecendo denúncia sobre as ameaças de morte que recebia ao Ministério Público e à Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Ela também chegou a participar da CPI Mista da Terra, na Câmara Federal.

Imagem ilustrativa da imagem Brasil lidera em violência contra ativistas
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