São Paulo- A obsessão pela magreza, associada a um descontrole sobre o trabalho médico, fez o Brasil conquistar um recorde incômodo: o de campeão mundial no consumo de anfetaminas, substâncias anorexígenas causadoras de dependência química, insônia, irritabilidade, taquicardia e hipertensão arterial, além de estar relacionadas à incidência de depressão, crises de ansiedade e pânico. E esse consumo só cresce.
Relatório divulgado pelo escritório das Nações Unidas responsável pela fiscalização e controle mundial das drogas (INCB, na sigla em inglês) mostra que o Brasil está na companhia de países como Austrália, Cingapura e Coréia, onde o consumo das anfetaminas vem crescendo, contrariamente à tendência mundial de retração.
De 6,97 doses diárias por mil habitantes, que o Brasil apresentava em 1993-95, quando uma recomendação internacional cobrou dos governos em geral um controle mais estrito dos estimulantes legais usados como anorexígenos, passou-se a 2,57 doses diárias por mil habitantes, em 1997-99. A partir desse biênio, entretanto, o consumo de anfetaminas cresceu consistentemente até atingir o índice de 9,1 doses diárias por mil habitantes no biênio 2002-2004.
As cifras correspondem a um crescimento de 254,1%.
As anfetaminas são drogas sintéticas usadas desde o início do século passado como estimulantes. Há registros do uso dessas substâncias por soldados nos fronts das grandes guerras mundiais. Por seu alto poder de adição, contudo, foram substituídas por drogas mais modernas, com menos efeitos colaterais. Atualmente, só se indica o uso de anfetaminas em casos raríssimos de narcolepsia (doença caracterizada por períodos de sono breves, repetidos e incontroláveis).
A popularidade das anfetaminas como auxiliar no emagrecimento decorre do fato de elas serem rápidas e potentes, verdadeiras ''lipoaspirações químicas'', como disse um médico.
''Tem gente que chega no consultório já exigindo a receita, porque vai casar a filha em 15 dias e tem de caber no vestido'', diz o psiquiatra André Malbergier, coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas da USP. Segundo ele, o sucesso extemporâneo decorre, em primeiro lugar, ''do boca-a-boca que uma menina faz para a outra sobre as propriedades emagrecedoras daquele comprimidinho. Mais de 90% dos usuários desse tipo de droga são mulheres''.
Malbergier acrescenta: ''Infelizmente, inexiste controle sobre os médicos, que prescrevem a droga, muitas vezes movidos por desinformação ou por interesse em manter consultórios lotados''.
A participação médica no problema é evidente. A comercialização das anfetaminas só acontece mediante Notificação de Receita ''B'' (Azul), emitida pelos médicos e que fica retida nas farmácias, para fiscalização sanitária.
Uma pesquisa conduzida pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas da Universidade Federal de São Paulo nos arquivos de farmácias de São Paulo encontrou casos de médicos que, em apenas um ano, haviam receitado mais de 8 mil medicamentos com anfetaminas.
O órgão responsável pela controle e fiscalização das drogas legais usadas no Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), só se pronunciará sobre o relatório hoje.

mockup