O Brasil, país de maior população católica do mundo, ganhou a sua primeira santa às 10h32 (5h32 no horário brasileiro) de ontem, no instante em que o papa João Paulo II leu a fórmula de canonização de cinco beatos: Madre Paulina, imigrante italiana que viveu e trabalhou pelos pobres durante 67 anos em Santa Catarina e São Paulo; o espanhol Alonso de Orozco; e os italianos Ignazio da Santhià, Umile da Bisignano e Benedetta Cambiagio Frassinello.
O papa leu o texto em latim, falando com voz cansada e dicção confusa, que o povo acompanhava com dificuldade, apesar de um serviço de som impecável. Quando ele acabou a leitura e o coral cantou três vezes Amém, a multidão aplaudiu. Havia cerca de 20 mil pessoas na Praça de São Pedro, que estava ocupada pela metade.
Nesse momento, começou a cair uma chuvinha fina que daí a pouco foi apertando para durar até o fim da cerimônia. ‘‘Foi pena ter chovido tanto, porque a cerimônia estava muito bonita’’, lamentou o cardeal d. Lucas Moreira Neves, ex-arcebispo de Salvador.
Centenas de pessoas começaram a deixar a praça correndo da chuva cada vez mais forte. O cerimonial distribuiu guarda-chuvas amarelo e branco – as cores da Santa Sé – para cardeais, bispos e convidados oficiais. O presidente Fernando Henrique Cardoso e sua mulher, Dona Ruth, abrigaram-se sob um guarda-chuva preto que a segurança de sua comitiva providenciou.
Além de d. Lucas, vários representantes do episcopado brasileiro assistiram à cerimônia de canonização. O cardeal d. Eugenio de Araújo Sales, arcebispo emérito do Rio de Janeiro e seu sucessor, d. Eusébio Scheid, estavam junto ao altar, ao lado do cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Cláudio Hummes. O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Jaime Chemello, também compareceu.
Mais de 2.500 brasileiros foram à Praça de São Pedro para homenagear Santa Paulina. Eles chegaram a Roma em excursões religiosas que nos próximos dias se estenderão às cidades de Assis, Pádua, Cássia e Vigolo Vattaro, a aldeia vizinha de Trento, no norte da Itália, onde nasceu Amabile Lucia Visintainer, a primeira santa do Brasil.
Alegres e barulhentos, os brasileiros batiam palmas, agitavam bandeirinhas e cantavam. Primeiro, entoaram um hino feito em homenagem a Santa Paulina e, no fim da cerimônia, cantaram o Hino Nacional. O papa, que já havia lido em português um pequeno trecho da biografia de Madre Paulina, improvisou uma saudação aos brasileiros, outra vez em português, no fim da celebração.
Um dos momentos mais emocionantes da cerimônia foi a hora da comunhão, quando a menina Iza Bruna recebeu a primeira eucaristia das mãos de João Paulo II. Vestida de branco, ela era a primeira da fila de 28 pessoas – parentes dos santos ou membros das comunidades religiosas que eles fundaram – que receberam a hóstia das mãos do papa.
Iza Bruna foi curada por intercessão de Madre Paulina, cinco dias após seu nascimento, quando corria risco de vida por causa de uma má-formação congênita. Interpretado como milagre, o fato foi reconhecido pelo Vaticano como prova para a canonização da primeira santa brasileira.

mockup