Brasil fica em posição difícil na sucessão de Camdessus5/Mar, 14:23 Por Paulo Sotero Los Angeles (EUA), 5 (AE) - A decisão brasileira de abster-se na primeira votação informal para escolha do sucessor de Michel Camdessus na direção do Fundo Monetário Internacional não terá confirmação oficial por um bom tempo. "Trata-se de um processo secreto e não faremos qualquer declaração à respeito", justificou um alto funcionário. A razão real do segredo é que a votação, na quinta-feira passada, deixou o País numa situação difícil. Por um lado, era difícil para o governo deixar de manifestar simpatia ao alemão Caio Koch-Weser, brasileiro de nascimento que a União Européia apresentou como candidato ao cargo de diretor-gerente do FMI. Políticos do Paraná, onde Koch-Weser nasceu há 55 anos de uma família de imigrantes, chegaram a fazer gestões junto ao presidente Fernando Henrique Cardoso para que o governo se manifestasse claramente a favor do candidato europeu. Conseguiram, em resposta, uma cuidadosa declaração do secretário-executivo do ministério da Fazenda, Amaury Bier, na sexta-feira atrasada, indicando apenas que o Brasil seguiria a tradição do Brasil é apoiar o consenso europeu no preenchimento da chefia do Fundo. Mas o governo não podia descartar a possibilidade de apoiar o vice-diretor-gerente do FMI, o norteamericano Stanley Fischer, que assumiu interinamente a vaga de Camdessus e foi lançado candidato por um grupo de países em desenvolvimento. Afinal, foi Fischer que, em dezembro de 1998, assumiu o enorme risco político de defender a aprovação da "operação preventiva" de US$ 41,5 bilhões de socorro Brasil perante a diretoria e ajudou, assim, a instalar a rede de proteção que se revelaria a salvação no mês seguinte, quando o governo foi finalmente forçado a mudar a política cambial e deixar o real flutuar. "Não faremos nenhuma declaração pública sobre esse assunto pois nada temos a ganhar com isso e, pelo contrário, só temos a perder", disse um alto funcionário da Fazenda, dois dias antes da votação, resumindo o dilema. A divisão entre os nove países representados pela cadeira permanente que o Brasil ocupa na diretoria-executiva do FMI acabou dando ao governo a cobertura política para abster-se na votação, junto com os Estados Unidos e outros países. "Este é um processo complicado e divisivo, que foi muito mal conduzido até agora", explicou a fonte. "Não falamos apenas por nós mesmos na diretoria do FMI, mas representamos um conjunto de países que têm apenas 2,49% do poder de voto". Diante do veto dos Estados Unidos a Caio Koch-Weser, continuou o alto executivo da Fazenda, "nosso voto não teria, neste momento maior influência sobre o rumo da decisão". Em novembro passado, antes de Koch-Weser ser oficialmente lançado como candidato, o governo brasileiro usou este mesmo argumento numa reunião de consultas com outros governos da América Latina para aconselhar o México, o Chile e a Argentina a não assumirem a priori uma atitude de oposição ao candidato alemão, como esses países haviam feito. Ao pedido de apoio que ouviu do próprio Koch-Weser, em visita que fez à Alemanha em dezembro, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, respondeu de forma simpática mas vaga, sem se comprometer. Ele deu a mesma resposta a outros pretendentes que também o procuraram, dizendo que o Brasil queria ver, primeiro, o processo de escolha amadurecer na Europa, que, por tradição, designa o diretor-gerente do FMI. Malan já sabia, então, que o governo alemão estava enfrentando resistências ao nome de Koch-Weser por parte da França e de outros governo europeus. Durante a visita à Alemanha, ele tomou conhecimento da primeira manifestação pública feita pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Larry Summers, sobre a sucessão no FMI. Falando a jornalistas em Washington um dia antes de apresentar um plano de reforma do FMI, num discurso na London School of Economics, Summers telegrafou a desaprovação norteamericana a Koch-Weser descrevendo o perfil da pessoa que Washington gostaria de ver na vaga aberta pela renúncia de Camdessus. O fato de a candidatura de Koch-Weser ter sido a primeira a ser lançada mas a terceira a ser formalmente apresentada ao "board" do FMI, depois das de Fischer e do ex-vice-ministro das Finanças do Japão, Eisuke Sakakibara, foi tomado em Brasília como uma indicação da precariedade do suporte da União Européia a seu nome. O veto norteamericano, que o presidente Bill Clinton comunicou pessoalmente ao chanceler Gerhard Schroeder, em conversa telefônica no sábado atrasado, e o porta-voz da Casa Branca confirmou publicamente horas depois de a União Européia endossar Koch-Weser, travou o processo de eleição do novo diretor-gerente do FMI e reforçou a decisão das autoridades brasileiras de manter uma posição de neutralidade. Na véspera da votação da quinta-feira, um alto funcionário da Fazenda explicou que a declaração de Amaury Bier sobre a tradição brasileira de apoiar o consenso europeu não era contraditória com a decisão de não optar por nenhum dos candidatos "porque na medida em que há um veto do maior acionista ao consenso europeu a Europa terá que chegar a um entendimento em torno de um nome com maior aceitação". No final da semana, Schroeder foi ao encontro do primeiro-ministro de Portugal, Antonio Guterres, o atual líder de turno da União Européia, para começar a desfazer o monumental fiasco político que produziu para a Alemanha ao insistir num candidato com qualificações duvidosas para preencher o primeiro cargo internacional importante aberto a seu país desde a Segunda Guerra Mundial. Do Porto, Schroeder foi a Paris, em meio a sinais crescentes de que o chanceler alemão preparava-se para retirar a candidatura do vice-ministro. Tendo submetido Koch-Weser a uma humilhação pública e mostrado o despreparo de seu governo para liderar a seleção do sucessor de Camdessus, o chanceler alemão e seus colegas europeus precisam agora encontrar uma saída honrosa para Koch-Weser e para o governo de Berlim e começar outra vez o processo de escolha de um candidato europeu aceitável para os Estados Unidos e capaz de ganhar o apoio das nações em desenvolvimento. Eles não têm tempo a perder. A decisão de Clinton de negar o voto norteamericano a Fischer, para provar à UE a disposição dos EUA de respeitar a tradição e manter um europeu no comando do FMI limitou o apoio ao diretor-gerente interino a 12% na primeira votação. Segundo fontes dentro e for a do Fundo, isso criou um fato político que dificulta a continuação do interinato de Fischer por muito tempo. A isso devem-se acrescentar as pressões políticas por reformas no FMI. Elas ganharão espaço esta semana com a publicação, na quinta-feira, em Washington, de um estudo de uma comissão especial do Congresso encomendou a um grupo de economistas. E devem ganhar ainda maior visibilidade com as manifestações contra a globalização que várias organizações não-governamentais revigoradas pelo sucesso de seus protestos contra a reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio, em dezembro passado, em Seattle, preparam para fazer durante a reunião semi-anual do FMI,no mês que vem, na capital norteamericana. Uma das bandeiras dos manifestantes é a abertura dos processos de decisão do FMI, a começar pela eleição do diretor-gerente. Isso e a necessidade da UE tem agora de provar que tem competência para preencher o posto máximo no Fundo sugere que demorará semanas - e não meses - para emerja o novo nome do sucessor de Camdessus.