Brasil é o segundo país a chegar aos 100 mil mortos por Covid-19
Nos Estados Unidos, 160 mil pessoas perderam a vida por complicações do novo coronavírus. Três milhões de brasileiros já foram infectados
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segunda-feira, 10 de agosto de 2020
Nos Estados Unidos, 160 mil pessoas perderam a vida por complicações do novo coronavírus. Três milhões de brasileiros já foram infectados
Folhapress 

São Paulo - Às 5h, David e Dierlis precisaram ligar as lanternas de seus celulares. O corpo da mãe, em um caixão lacrado, tinha que ser enterrado. Não havia luz.
Apenas os dois foram autorizados a acompanhar o sepultamento de Aparecida Rodrigues Meneses, 78, no cemitério de Urânia, interior de São Paulo. Era 7 de junho, e uma agonia de 15 dias terminava para outra começar, sem final em vista para os irmãos. "Era como se estivéssemos fazendo alguma coisa errada. Enterrar correndo, de madrugada, com a luz do celular, sem poder nem ver minha mãe. É muito cruel", diz o policial federal David Meneses, 43.
Assim, no escuro, Cida entrou em uma contabilidade tétrica que, neste sábado (8), cruzou uma barreira tão triste quanto colossal: segundo registros oficiais, pelo menos 100 mil pessoas morreram no Brasil por causa da pandemia do novo coronavírus. O número pode ser maior, pois há indícios de subnotificação. Apenas 5% dos 5.570 municípios brasileiros, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), têm mais habitantes do que essa multidão de mortos que o coronavírus formou.
É como se um Maracanã lotado, com mais 22 mil pessoas na porta, sumisse. Uma centena de milhares de vidas e histórias se perderam até aqui, muitas delas na escuridão de dados, dúvidas, protocolos confusos ou desobedecidos. Hoje, o Brasil fica atrás apenas dos Estados Unidos, com 160 mil mortos e população 57% maior, em número óbitos. Somente os dois países chegaram à marca dos 100 mil mortos.
Hoje, dos quase 20 milhões de casos registrados no mundo, mais de 14% ocorreram aqui, embora vivam no país 2,7% dos habitantes do planeta.
Negra, septuagenária e com comorbidades comuns à idade, apesar de forte e disposta, Cida espelha os brasileiros mais atingidos pela doença. Foi enterrada poucas horas depois de morrer em um hospital público de Jales, sem que as pessoas da cidade do noroeste paulista pudessem comparecer ao velório, seguindo regras sanitárias. "Dois meses antes, ela foi à funerária e comprou uma mortalha, a roupa que queria usar quando morresse. Depois eu soube que ela pediu para que não contassem para mim e para minha irmã", diz David. "Ela nem pôde usar. Foi enterrada dentro de dois sacos plásticos no caixão lacrado."
Na mesma semana em que Cida morreu, o Ministério da Saúde, já sem titular nomeado após a demissão de Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, atrasava a divulgação de dados da pandemia. Antes anunciados às 17h, após o posto ser ocupado interinamente pelo general Eduardo Pazuello, às 22h . Pazuello, mais cordato com os pedidos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para amenizar protocolos da quarentena e ampliar o de uso de cloroquina continua no cargo.
Um longo caminho já fora percorrido desde a primeira morte registrada por Covid no Brasil: a do porteiro Manoel Freitas Pereira Filho, 62, em 16 de março, em São Paulo. Quando ele morreu, o país dava sinais de que a pandemia deixaria efeitos profundos. As instituições financeiras consultadas pelo Banco Central haviam revisado suas projeções de crescimento da economia no ano para 1,68%. Hoje, a expectativa é uma retração de 5,7%.
Coronavírus não ataca somente o pulmão
O pulmão não é o único órgão a ser afetado. Pesquisadores descobriram que o vírus se aproveita de uma proteína (ECA-2, em português) na membrana das células para fazer a invasão. Essas proteínas também estão presentes em células do coração, dos rins e até no intestino.A infecção é mais letal em quem tem doenças cardíacas. Hipertensão, diabetes e obesidade, entre outras, podem elevar o risco de morte.
No Brasil, o número de pessoas que tiveram sua infecção por Covid confirmada supera 3 milhões – apenas três cidades brasileiras, São Paulo, Rio e Brasília, comportam mais gente do que isso. Na economia, os reflexos ficaram mais claros. No segundo trimestre do ano, 8,9 milhões perderam o trabalho. O país e o mundo esperam a chegada de uma vacina.
No Brasil, o estado de São Paulo se prepara para começar a produzir ainda neste ano o imunizante, em uma parceria do Instituto Butantan com o laboratório chinês Sinovac. Bolsonaro destinou R$ 1,9 bilhão para a compra de outra vacina, testada pelo laboratório AstraZeneca e pela Universidade de Oxford.
Protesto no Rio leva cruzes e balões vermelhos à praia

Com cruzes e balões vermelhos, a ONG Rio de Paz realizou na manhã de sábado (8) um protesto contra a atuação do poder público no enfrentamento da pandemia do novo coronavírus. O ato foi também uma homenagem aos 100 mil mortos pela Covid-19 no Brasil.
"Municípios, estados e União erraram. a disputa política se sobrepôs aos interesses da sociedade", disse o presidente da ONG, Antônio Carlos Costa. "Não há o que justifique as brigas entre prefeitos, governadores e o presidente da República, a incapacidade de trabalharem juntos em um gabinete de crise visando apresentar ao país uma política comum."
"Por que somos o segundo país em número de mortos?", questionava a ONG em uma faixa fincada na areia da praia de Copacabana. Mil balões vermelhos biodegradáveis foram espalhados pela praia. Cem deles foram presos a cruzes fincadas na areia. O presidente da Rio de Paz voltou a fazer críticas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), para ele o maior responsável pela situação. "Enquanto o país agonizava em estado de perplexidade, nós o víamos pilotar jet ski, cavalgar, organizar churrasco, forçar demissão de dois ministros da saúde e prescrever remédio como se médico fosse", afirmou. "E o mais assustador, não ter demonstrado empatia pelos parentes das vítimas enquanto estimulava a quebra do distanciamento social."
Como no ato anterior da ONG, um apoiador de Bolsonaro que caminhava pelo calçadão bateu boca com manifestantes. Ele chamou de fake news o número de mortos e foi interpelado pelo taxista Marco Antonio do Nascimento, que perdeu um filho para a doença. "Não fala que é fake news", disse ele, mostrando uma foto do rapaz. Nascimento ficou conhecido no último ato do Rio de Paz, em junho, quando recolocou no lugar cruzes que haviam sido derrubadas por um apoiador de Bolsonaro, que questionava as críticas à condução da crise pelo presidente da República.


