Brasil e Argentina vão intensificar cooperação nuclear e espacial
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2000
Por Demétrio Weber 
Brasília, 28 (AE) - O Brasil e a Argentina vão intensificar a cooperação nuclear e espacial. Uma agenda comum, incluindo projetos em outras cinco áreas científicas e tecnológicas, será definida nos próximos três meses por técnicos dos dois países. A decisão foi anunciada hoje pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg, e o secretário argentino de Ciência, Tecnologia e Inovação Produtiva, Dante Caputo, após encontro em Brasília. O objetivo é estabelecer parcerias no setor.
"Mais do que cooperação, queremos passar a ter uma associação com o Brasil no campo da ciência e da tecnologia", declarou Caputo, em seu segundo dia de visita ao Brasil na primeira viagem internacional após tomar posse no governo argentino. Para ele, as relações no âmbito do Mercosul não devem ficar restritas a aspectos comerciais. "Questões científicas e tecnológicas terão impacto no futuro do Mercosul". Mas tanto ele quanto Sardenberg descartam a possibilidade de construção de uma usina nuclear binacional.
A idéia é aumentar o comércio de produtos e serviços ligados à produção de energia nuclear, como combustíveis e elementos atômicos. Segundo o ministro, as vendas de empresas nucleares brasileiras à Argentina superaram R$ 2 milhões nos últimos três anos sem que houvesse um grande esforço de exportação. "Fazendo mais força, poderemos ter mais negócios", disse Sardenberg.
Além disso, há o interesse brasileiro em aproveitar a mão-de-obra argentina, em especial de engenheiros. Nos últimos anos, 700 pesquisadores argentinos desenvolveram projetos no Brasil. O intercâmbio de pessoal é uma das áreas que vão constar na agenda a ser negociada nos próximos três meses. As demais são biotecnologia, informática (redes de computadores), adequação de leis que regulam temas científicos e tecnológicos e climatologia.
"Não queremos adiantar o que vai ser a agenda comum, pois isso ainda será muito discutido", afirmou Caputo, para quem Brasil e Argentina são países "simétricos" na área nuclear. Com duas usinas, a Argentina suspendeu a construção de sua terceira planta nuclear e decide nos próximos meses se retoma o projeto. No Brasil, apenas a usina de Angra 1 está em funcionamento. Prática - Caputo destacou a importância dos projetos espaciais para os dois países, que já cooperam nesse tipo de atividade. Em abril, deve ser lançado dos Estados Unidos um satélite argentino
equipado com câmeras fotográficas para uso diverso. O satélite passou por testes no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, interior de São Paulo.
Nos próximos 30 dias, equipes dos dois governos vão trocar informações preparatórias para as reuniões técnicas previstas para março. Entre os dias 15 e 20 de abril, Sardenberg deverá ir à Argentina para concluir a agenda comum a ser apresentada aos presidentes dos dois países.
Em 1980, Brasil e Argentina firmaram o Acordo Básico de Cooperação Científica e Tecnológica. Com a nova agenda, no entanto, Sardenberg e Caputo esperam intensificar radicalmente as atividades conjuntas. Na área de informática, por exemplo, o governo brasileiro espera aumentar suas exportações de softwares. A ligação de redes de computadores por cabos de fibra ótica entre os dois países também é estudada.
Segundo Sardenberg, é indispensável avançar na compatibilização de leis e normas dos dois países. "Sem base legal comum, não há como intensificar a associação", afirmou ele. Uma lei comum de patentes - que depende da aprovação do Poder Legislativo nos dois países -, no entanto, é algo ainda "prematuro" na avaliação de Sardenberg. Outro ponto que poderá constar na agenda é o dos alimentos transgênicos (a Argentina é uma grande produtora de soja transgênica).
"A decisão política é dar um salto de qualidade nas relações científicas e tecnológicas entre Brasil e Argentina", resumiu Caputo, que já foi chanceler argentino (1983-1989) e presidente da Assembléia Geral das Nações Unidas (1989). "Agora temos que definir os projetos para fazer isso". Ontem, Caputo esteve em Campinas (SP), visitando o Laboratório Nacional de Luz Síncroton, e conversou com o presidente Fernando Henrique Cardoso, no Palácio da Alvorada.


