Brasília, 04 (AE) - A Câmara de Comércio Exterior (Camex) decidiu rever os financiamentos do Proex às exportações para os países do Mercado Comum do Sul (Mercosul) e estuda eliminar as restrições ao pagamento de importações financiadas, oriundas da Argentina, Paraguai e Uruguai. As duas medidas são reivindicadas principalmente pela Argentina, que ameaça impor cotas às importações de origem brasileira.
Os parceiros do Brasil no Mercosul querem uma compensação pelo aumento da competitividade dos produtos brasileiros depois da desvalorização do real.
A crise nas relações comerciais intra-Mercosul levou o presidente Fernando Henrique Cardoso a mandar um recado para seu colega argentino, Carlos Menem: "Não vamos estremecer nossa confiança só porque há um ou outro problema momentâneo", afirmou durante solenidade no Planalto. O assunto será tratado em encontro dos dois presidentes agendado para o próximo dia 12.
O secretário-executivo da Camex, embaixador José Botafogo Gonçalves, anunciou ainda que o atual sistema de financiamento às exportações será adequado às novas necessidades dos exportadores. "Queremos dar maior operacionalidade às linhas de crédito, quem sabe aumentar o volume e facilitar a participação das pequenas e médias empresas a esses recursos", afirmou o secretário.
Ele disse que ainda é cedo para avaliar o impacto da desvalorização cambial na balança comercial neste ano. "Não dá para afirmar que haverá um saldo positivo, mas certamente estamos caminhando para o equilíbrio", completou. Em 1998 a balança comercial teve déficit de US$ 6,4 bilhões.
Botafogo explicou que a idéia é redirecionar para mercados onde o Brasil é menos competitivo - como Estados Unidos e União Européia - os recursos atualmente destinados à produção voltada para exportações intra-Mercosul. "Financiar as exportações para a Argentina não parece o uso mais inteligente dos recursos do Proex", afirmou o secretário. Segundo ele, "há uma coincidência de interesses entre a reivindicação da Argentina e o desejo do Brasil de promover as exportações para mercados mais competitivos".
Na prática, ao mostrar disposição de atender os pleitos da Argentina, o governo brasileiro está buscando administrar a crise que a desvalorização cambial deflagrou no âmbito do Mercosul. Ontem (03) à noite, o Ministério da Economia daquele país ameaçou fixar cotas às importações brasileiras.
Segundo dados oficiais, as importações de mercadorias brasileiras duplicaram nas duas últimas semanas na Argentina. Na avaliação de Botafogo, no entanto, "o temor dos argentinos de que haverá uma invasão de produtos brasileiros não se sustenta em dados concretos".
O aumento das importações de mercadorias brasileiras é apenas um dos efeitos da desvalorização cambial para a economia Argentina e dos demais integrantes do Mercosul. Os países vizinhos, especialmente a Argentina, temem uma redução significa no volume de suas exportações ao Brasil, por causa da recessão prevista para este ano.
Mas para o presidente Fernando Henrique, isso não deve ser visto como um problema: "As exportações brasileiras serão "prestigiadas" com a desvalorização do real, mas afirmou que o Brasil continuará importando trigo e petróleo da Argentina.
Subsídio - A Argentina reivindica o corte dos Proex às exportações destinadas ao Mercosul porque considera que essas linhas de financiamento constituem subsídio, distorcendo a competitividade na região. O outro pleito é a prorrogação de exceção já feita pelo governo brasileiro às importações feitas do Mercosul, das restrições contidas em resolução do Banco Central que impôs o pagamento à vista das compras externas feitas com prazos de até 180 dias. A prorrogação inicial vence no próximo dia 28.
A Camex mantém a meta de aumentar as exportações para US$ 100 bilhões até o ano 2002, apesar da queda da atividade econômica em quase todo o mundo prevista para este ano. Botafogo disse que a Camex reiterou hoje o objetivo de revitalizar o Programa Especial de Exportações, que abrange 59 setores, dos quais 22 deles já detalharam suas metas de vendas externas para os próximos três anos. Ele informou ainda que está em estudo a ampliação do orçamento do Proex neste ano, de R$ 1,8 bilhão.

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