Brasil desperdiça 46% da água coletada
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domingo, 19 de janeiro de 2003
Lucia Martins<br> Agência Estado 
Rio O Brasil perde 46% da água que é coletada, um total de 5,8 bilhões de metros cúbicos por ano, suficientes para abastecer a França, a Suíça, a Bélgica e o norte da Itália juntos pelos mesmos 12 meses. Foi o que mostrou levantamento realizado por um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que reuniu uma série de indicadores para mostrar como a ineficiência das empresas de saneamento provoca desperdício, prejuízos financeiros e vários danos à saúde da população.
O estudo é resultado do garimpo de dados coletados desde 1996 e finalmente reunidos no fim de 2002. Ele foi feito pela Coordenação de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe/UFRJ), sob encomenda para a Agência Nacional de Águas (ANA), criada em 2000 com o objetivo de gerenciar os recursos hídricos do País.
A perda de água no Brasil por roubo, vazamento etc. está bem acima da média de países desenvolvidos e até de vários em desenvolvimento. A Europa tem índices de perdas em torno dos 10%. Alguns países da Ásia, como Cingapura, perde apenas 6%. Da bacia do rio Paraíba do Sul, o Rio é o Estado que mais desperdiça: 55% do total produzido. São Paulo vem em seguida, com 41% de perdas.
O desperdício, avalia o estudo, repercute negativamente de várias formas. Além do aumento dos cortes e não abastecimento de água em várias regiões do País (incluindo a periferia de São Paulo), ele eleva os gastos do governo com saúde. O estudo da Coppe estima que 60% das internações hospitalares nos hospitais públicos são de vítimas de doenças ''de veiculação hídrica''. A ingestão e o uso de água contaminada, proveniente de fontes não confiáveis, é a causa de vários males e de muitas mortes no País. ''Poderíamos reduzir muito as doenças e a taxa de mortalidade infantil, além, é claro, do dinheiro gasto com o tratamento desses problemas'', afirma Paulo Canedo, professor de recursos hídricos do curso de engenharia civil da Coppe e coordenador da pesquisa.
A Agência Nacional de Águas encomendou o estudo aos pesquisadores da Coppe para avaliar a situação da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Nela, o governo federal está fazendo o primeiro projeto-piloto de tentativa de conservação da bacia e uso racional da água, além de redução do esgoto que é despejado nos rios. Localizada no Sudeste, entre os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, a bacia está em uma das regiões mais desenvolvidas do país. Dependem deste rio 180 municípios e uma população de 5,25 milhões de habitantes.
Faz parte do projeto-piloto o início da cobrança pela captação e uso da água. Todas as empresas usuárias da bacia começam este ano a pagar pela coleta. A expectativa é de que a taxa fique em torno de R$ 0,02 por metro cúbico. A ANA calcula que sejam arrecadados R$ 15 milhões no primeiro ano de cobrança, recursos que poderão ser aplicados na despoluição do Paraíba do Sul. ''Esta é uma tentativa de forçar as empresas de racionalizar o uso desse recurso que, em todo o mundo, está cada vez mais escasso'', explica Canedo.
No Brasil, ainda há muita gente sem acesso à água. São 40 milhões de pessoas que vivem em domicílios sem rede ou em casas que contam com canos, mas a água não chega. ''Não é aceitável que um País como o Brasil não tenha cobertura de 99% de água. Não há tolerância para esse tipo de índice. Todos têm o direito de receber água em suas casas'', avalia o professor.
Para ele, as maiores responsáveis pela falta de cobertura total são as empresas de saneamento, que não têm interesse em ampliar a rede e também não são forçadas a isso. O mesmo ocorre com a rede de esgoto presente em apenas 43% dos domicílios. O problema é que, diz o professor, não existem mecanismos para forçar as empresas a cumprirem seus deveres e ampliar a rede. ''E, além disso, o consumidor não pressiona como deveria. As pessoas precisam ficar mais indignadas por causa da falta de água ou a inexistência de sistemas de coleta de esgoto'', ataca. Não existem no Brasil órgãos ou agências responsáveis por pressionar e incentivar a instalação de mais redes de esgoto.
Apesar de ter projetos que prevêem novos sistemas de saneamento, a função da ANA é preservar as bacias. O Ministério do Planejamento tem alguns programas de incentivo a projetos de saneamento, mas ainda faltam mecanismos mais efetivos para aumentar as redes de água e esgoto em todo o País. ''É um buraco negro. Não há órgão governamental responsável por punir quem esquece suas responsabilidades. Além disso, o consumidor brasileiro reclama pouco. Com isso, empresas e governos municipais e estaduais não são forçados a mudar.''


