Brasil corre risco de não cumprir metas de inflação em 2000
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de dezembro de 1999
Por Lu Aiko Otta 
Brasília, 29 (AE) - O Brasil corre sério risco de não cumprir as metas de inflação acordadas com o Fundo Monetário Internacional (FMI) no ano que vem, propostas para junho e setembro. A meta para o ano 2000 como um todo, porém, deverá ser cumprida. O alerta está no III Relatório de Inflação, divulgado hoje pelo Banco Central (BC). Nele, o governo admite que errou para baixo nas previsões de inflação a partir de outubro deste ano, e esse erro terá repercussões nas projeções para o ano 2000 incluídas no acordo com o FMI.
Por isso, o próprio BC reviu para cima suas projeções. No II Relatório, a estimativa de inflação para este ano era de 7 4% e agora ficou em 8,9%. Para 2000, a estimativa saltou de 4,6% para 5,4%.
Os principais responsáveis pela falha nas previsões foram as tarifas públicas. Também contribuíram produtos que tiveram alta temporária de preços, como alimentos - devido à entressafra prolongada - e automóveis. O efeito da alta será captado nos cálculos de inflação no ano que vem o que, segundo o relatório, "traduz-se em uma elevação expressiva das chances de haver uma consulta informal ao FMI no segundo e terceiro trimestres de 2000."
O relatório do BC prevê que as chances de a meta de inflação superar o previsto em até um ponto porcentual em setembro do ano que vem, ultrapassando a chamada banda estreita, são de 48,8%. A possibilidade de a inflação ficar dois pontos porcentuais ou mais acima do esperado, superando a chamada banda larga, são de 33,8%.
Na primeira hipótese, o governo brasileiro precisará explicar as razões do estouro da meta à equipe técnica do FMI. Deverá, inclusive, mostrar como pretende superar o problema - se com aumento da taxa de juros, contenção do crédito ou outras medidas. Esse procedimento é a "consulta informal" a que se refere o relatório.
Caso a inflação fique dois pontos porcentuais ou mais acima do esperado, as justificativas e medidas propostas deverão ser apresentadas à diretoria do FMI. Além disso, nesse caso o Brasil poderá ser impedido de sacar novas parcelas do empréstimo com o FMI.
O próprio relatório do BC mostra que as chances de consulta aos técnicos do FMI existe ao longo de todo o ano 2000. Em março, as chances são de 27,7%; em junho, de 45,7%; em setembro, de 48,8% e em dezembro, de 35%. As chances de a consulta ocorrer com a diretoria são de 11,1% em março, 28% em junho, 33,8% em setembro e 23,7% em dezembro.
Por muito pouco, o governo brasileiro não precisará se justificar aos técnicos do FMI ainda neste ano. A meta de inflação para dezembro foi fixada em 8% mas, segundo o próprio relatório admite, ela deverá ficar em 8,9%. Caso atinja 9% ou mais, terá superado o limite de chamada banda estreita, o que obrigará a entendimentos com os técnicos do FMI.
O acordo com o FMI prevê que a inflação brasileira medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) será, ao longo de 2000, de 7,5% em março, 7% em junho, 6,5% em setembro e 6% em dezembro. Os números referem-se à inflação acumulada na série de doze meses terminadas no mês em questão - ou seja, os 7 5% de março correspondem à inflação acumulada de abril de 99 a março de 2000.
É justamente pelo fato de considerar a inflação ocorrida nos doze meses anteriores que as metas acordadas com o FMI estão ameaçadas de estourar. Os números incorporarão a inflação ocorrida em outubro e novembro deste ano, que ficou acima do esperado, segundo admitiu o governo. O risco é maior entre julho e setembro, quando ocorrerão novos reajustes de tarifas públicas. "No terceiro trimestre, a concentração de aumentos de tarifas de serviços públicos provoca alta da inflação, embora em menor intensidade do que no ano anterior, reduzindo a variação em 12 meses, mas talvez não o suficiente para evitar que o limite superior da banda estreita seja atingido", diz o relatório.
Além das tarifas públicas, o governo se mostrou surpreso com o comportamento dos preços de alguns produtos em outubro e novembro. Segundo o relatório, foram "choques de oferta" que, "apesar de já terem sido detectados no último relatório, não foram adequadamente quantificados". Nesse grupo, estão os alimentos, que tiveram alta de preços devido à entressafra prolongada, e os automóveis, cujos preços foram reajustados a partir de setembro, com o fim do acordo entre governo e montadoras que reduziu o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Houve ainda a elevação do preço do álcool, em função da elevação dos preços internacionais do açúcar, que acabou repercutindo no preço da gasolina.
Tarifas - Além de ameaçar o cumprimento das metas de inflação, o comportamento dos preços públicos também impediram o governo de reduzir mais acentuadamente as taxas de juros, segundo o relatório. Os reajustes, segundo análise do BC, têm produzido "efeitos não desprezíveis sobre a taxa de inflação dificultando a condução da política monetária em 1999." No relatório, está explicado que as tarifas tiveram, em 99, reajustes acima da inflação, "pois obedecem a cláusulas contratuais e não às condições de oferta e demanda."
Além disso, houve uma forte elevação nos preços internacionais do petróleo, que puxou para cima os preços dos combustíveis. O preço do barril subiu de perto de US$ 11,00 para cerca de US$ 27,00 neste ano. O BC acredita que, em 2000, o preço estacionará entre US$ 20,00 e US$ 22,00.
O relatório prevê que a queda no preço internacional do barril de petróleo será possível somente a partir de março do ano que vem. Passado o inverno no hemisfério norte, é esperado recuo na cotação, "de modo que o petróleo deve ser fonte moderada de preocupação no próximo ano." Por outro lado, os alimentos já mostram recuo nos preços a partir de novembro e, no início do próximo ano, haverá uma queda ainda mais acentuada.


