São Paulo, 03 (AE) - Tudo começou bem. Quando o Brasil optou pela flutuação do real em 15 de janeiro, a queda inicial na moeda foi moderada e os mercados de ações subiram na esperança de que o severo programa de estabilidade seria logo afrouxado. "Então as autoridades brasileiras viajaram a Washington e, durante o fim-de-semana, foram persuadidas a elevar as taxas de juros ao invés de reduzi-las", diz o economista Paul Krugman no artigo "Alas, Brazil", publicado hoje no site do MIT na Internet.
"Eu não entendo porque as autoridades de Washington não deram uma chance à flutuação do câmbio. Você pode até suspeitar que eles têm medo de Jeffrey Sachs provar que estava certo. O Brasil poderia ter êxito deixando a moeda flutuar sem aumento das taxas de juros. Isto significa que a recessão imposta ao País é desnecessária, gratuitamente exigida em nome de uma teoria incorreta", diz o economista norteamericano.
Ele afirma que evitou emitir qualquer opinião pública sobre a "implosão" brasileira "em grande parte porque as coisas começaram muito bem". Krugman aponta que boletins informativos de investimentos alertam a respeito do risco de não-pagamento da dívida brasileira e de hiperinflação.
"Os analistas estão prevendo uma contração da produção equivalente à da ásia e os últimos rumores - que eu espero que sejam falsos - dizem que o FMI, inacreditavelmente, quer que o Brasil aumente as taxas de juros novamente", diz.
Segundo o economista, o presidente Fernando Henrique Cardoso tem dito que não considera a imposição de controles de capital porque seria o mesmo que desistir das chances de o Brasil tornar-se uma nação de "primeira classe". "Você pode apenas simpatizar-se com a difícil situação do presidente brasileiro: ele tem tentado arduamente fazer a coisa certa e recebido muito pouco reconhecimento", diz Krugman.
Entretanto, o não pagamento da dívida, a volta da inflação ou uma recessão catastrófica fariam o País retroceder muito mais que o recolhimento temporário dos capitais. "Lembrem-se que muitas das atuais nações de "primeira classe" tiveram controle de capital por uma geração ou mais após a Segunda Guerra Mundial; portanto, a utilização desse instrumento, nesse momento
seria uma pena, e não uma vergonha", aponta o economista.
De acordo com Krugman, o princípio da liberdade de expressão não inclui o direito de gritar "Fogo!" num teatro lotado; e o princípio do livre mercado não deveria incluir "o não fazer nada" quando os investidores disputam pesadamente um contra o outro, ainda mais quanto se trata de uma economia nacional que explode numa debandada procurando a saída.
"Isto é o que está acontecendo agora. Investir no Brasil seria seguro e rentável desde que não houvesse risco de crise; o investidor individual está mais temeroso com relação à ação dos demais investidores do que com as atitudes do governo brasileiro. Se cada investidor acreditasse na calma de colegas, tudo seria administrável; mas eles desconfiaram um do outro - e veio a crise", avalia o analista.
O Brasil deveria ser capaz de estabilizar o real num patamar elevado pois, diferentemente dos países asiáticos, as companhias brasileiras não estão sobrecarregadas com dívidas em dólar. Para Krugman, se a situação não se estabilizar no País, uma imposição temporária de controle cambial viria em interesse de todos, incluindo o dos próprios investidores.
Uma coisa é certa para o economista: o tratamento com elevadas taxas de juros é completamente errado neste caso. "O FMI agora quer reivindicar que a estabilização na ásia e o começo de alguma recuperação na Coréia do Sul é uma prova do sucesso de tal abordagem; é como se o departamento de segurança das rodovias reivindicasse seu êxito porque muitas vítimas de acidente sobrevivem e algumas, eventualmente, aprendem a andar novamente."
"Qualquer que seja o próximo passo do Brasil, por favor, não permitam uma nova elevação nas taxas de juros", diz o

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