Brasil cede e segura exportações
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de fevereiro de 1999
Valmir Denardin 
Um mês após a desvalorização do real, o governo brasileiro cedeu à pressão da Argentina e decidiu extinguir os financiamentos do Programa de Incentivo às Exportações (Proex) para as vendas de bens de consumo aos demais parceiros do Mercosul. No âmbito do bloco econômico, o benefício foi mantido apenas para as exportações de bens de capital (máquinas e equipamentos).
Além de afetar a vida interna do País, a desvalorização brusca e acentuada do real pôs em perigo a consolidação do acordo tarifário integrado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Com a moeda brasileira enfraquecida perante o dólar, os produtos nacionais destinados à exportação se tornaram mais baratos e competitivos. Por outro lado, a crise cambial tornou as importações mais caras para os brasileiros.
A Argentina foi o maior prejudicado pela crise brasileira. O Brasil é hoje o principal parceiro comercial da Argentina, absorvendo 30% de suas exportações. Desde 1995 - ano seguinte à implantação do real, a balança comercial dos dois países tem sido favorável à Argentina. No ano passado, por exemplo, o Brasil importou US$ 8,03 bilhões em produtos argentinos e exportou àquele país apenas US$ 6,7 bilhões.
A desvalorização do real ameaça inverter essa situação. Apenas em janeiro, as importações de produtos brasileiros cresceram 54% em relação a dezembro de 98, segundo levantamento do governo argentino. Embora menos afetados, Uruguai e Paraguai também anunciaram medidas protecionistas para evitar uma invasão de mercadorias brasileiras.
Pressionado, o governo brasileiro resolveu acabar com os subsídios do Proex para os produtos de consumo vendidos aos parceiros do Mercosul. Com juros baixos - 5% ao ano -, o programa é a principal linha de crédito para as exportações. Para países de fora do Mercosul e para a exportação de máquinas e equipamentos, os subsídios do Proex estão mantidos.
A medida dividiu especialistas. Enquanto alguns consideraram-na necessária para evitar uma invasão de produtos brasileiros nos mercados vizinhos, outros prevêem que o corte nos subsídios irá prejudicar o esforço brasileiro de aumentar as exportações e melhorar o saldo da balança comercial.
A decisão brasileira foi anunciada em 12 de fevereiro, durante encontro entre os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Carlos Menem, em São José dos Campos (SP). No encontro, Brasil e Argentina fizeram uma defesa enfática do Mercosul e decidiram criar um grupo com representantes dos dois países para acompanhar os fluxos comerciais bilaterais. Outros grupos serão criados para monitorar o fluxo comercial entre o Brasil e os dois outros parceiros do bloco - Uruguai e Paraguai.


