MADRI (ESPANHA) - Espécie de ensaio geral da diplomacia antes das conferências do clima da ONU, a nova edição das Reuniões Climáticas de Junho - que acontecem todos os anos em Bonn, na Alemanha - começa nesta segunda-feira (16) com uma delegação do Brasil determinada a amarrar as pontas soltas deixadas nas negociações passadas.

O objetivo é resolver as pendências, abrindo caminho para a extensa agenda prioritária que a presidência brasileira quer impor à COP30, cúpula climática das Nações Unidas que acontece em novembro, em Belém, e pretende ser a "COP da implementação".

"Temos alguns temas que não foram acordados na última COP [29, em Baku] que se tornaram ainda mais importantes para esta reunião em Bonn", disse Ana Toni, diretora-executiva da 30ª conferência mundial do clima da ONU.

Segundo ela, entre as prioridades da presidência brasileira destacam-se três temas: a transição energética justa, os indicadores de adaptação e o diálogo para o chamado balanço global, mais conhecido pela expressão em inglês "global stocktake" (GST).

Apesar de alguns avanços, o Grupo de Trabalho para a Transição Justa - que trata do processo de migração para uma economia de baixo carbono de forma equitativa, com proteção de grupos vulneráveis e comunidades afetadas, geração de empregos verdes e participação social - não teve consenso na última COP, no Azerbaijão.

A presidência da COP30 propôs diversas iniciativas para tentar envolver atores que tradicionalmente têm sido sub-representados nos espaços de discussão. Em Bonn, está prevista uma série de encontros nesse sentido, incluindo o diálogo com povos indígenas e comunidades locais.

Essencial para avaliar o progresso dos países em suas metas de redução de gases-estufa, o balanço global é um mecanismo previsto no Acordo de Paris, devendo ocorrer a cada cinco anos. O primeiro relatório foi apresentado na COP28, em Dubai, mas os países não chegaram a um consenso na implementação de elementos fundamentais nos resultados.

Um dos principais objetivos para Bonn é, portanto, chegar pelo menos a uma proposta preliminar sobre a implementação desses resultados.

Os indicadores de adaptação climática, escolhidos como uma das prioridades pela delegação brasileira, também são considerados centrais por ambientalistas para o avanço das discussões em Bonn. Uma versão consolidada desses indicadores será analisada e discutida pelos países pela primeira vez nas Reuniões de Junho.

Na avaliação de Alexandre Prado, líder em mudanças climáticas do WWF-Brasil, que acompanha a conferência em Bonn, os três temas indicados como centrais pelo Brasil são justamente os que têm maiores chances de progresso na reunião, informalmente conhecida como pré-COP.

"A expectativa é que se avance nisso agora, deixando tudo prontinho para que se tenha um acordo nos primeiros dias da COP30", completou.

PAÍSES RICOS E NAÇÕES VULNERÁVEIS

A reunião em Bonn, contudo, deve sair com poucos avanços em relação ao financiamento climático, um dos pontos mais sensíveis da diplomacia, que opõe países ricos, responsáveis por pagar a conta, e as nações mais vulneráveis, que recebem os recursos.

Na COP29, em Baku, os países concordaram com o Novo Objetivo Coletivo Quantificado - mais conhecido pela sigla em inglês NCQG -, que ampliou para US$ 300 bilhões anuais, até 2035, os recursos para ação climática, com o objetivo acordado, mas sem nenhum caminho concreto definido, de expandir o valor para US$ 1,3 trilhão, minimizando recursos públicos e privados.

O mapa do caminho para chegar até lá, bem como os pormenores do tipo de financiamento, têm motivado debates acalorados entre as delegações.

Em sua terceira carta pública, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, destacou a importância do diálogo em Bonn para reforçar o multilateralismo climático.

A experiência na cidade alemã será uma espécie de termômetro para o ambiente das negociações em Belém. Neste momento, as atenções estão voltadas sobretudo para a postura dos EUA, que já anunciaram a saída do Acordo de Paris, mas que só estarão formalmente desvinculados a partir de janeiro de 2026.

Antes de embarcar para a Alemanha, a CEO da COP30, Ana Toni, participou de uma maratona de eventos ambientais na Europa, incluindo a Unoc3, a 3ª Conferência das Nações Unidas sobre o Oceano, em Nice, na França.

Toni destaca que aproveitou para se aprofundar em diálogos sobre a entrega das atualizações dos planos de redução de emissões, as chamadas NDCs, sigla em inglês para contribuições nacionalmente determinadas.

A COP30 marcará os dez anos da assinatura do Acordo de Paris, e a atualização das NDCs, que medem o progresso dos países rumo às suas metas, será parte essencial do debate.

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