Rio, 22 (AE) - O governo brasileiro já admite negociar com a Argentina medidas extraordinárias de comércio, caso o aumento das exportações do Brasil para seu principal parceiro do Mercosul seja tão forte a ponto de abalar a economia do país vizinho. O ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, apesar de ressaltar que o Brasil não irá aceitar medidas de salvaguarda comercial, como restabelecimento do sistema de cotas ou alteração de tarifas de importação, declarou hoje que soluções setoriais podem vir a ser adotadas.
Durante a primeira reunião do Fórum Empresarial Mercosul-União Européia, que será encerrado amanhã (23) no Rio, o ministro afirmou que os governos do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai já assumiram o compromisso de não adotar nenhuma medida unilateral. A indústria argentina reclama das consequências da desvalorização monetária brasileira sobre a economia de seu país e reivindica do governo medidas de proteção contra uma possível invasão de produtos do Brasil.
"Se houver um crescimento explosivo na exportação e se isso trouxer danos, acho que poderemos analisar a posição do governo no monitoramento comercial, por setor", afirma Lampreia
negando que esteja admitindo, com isso, o conceito de salvaguarda.
Nas últimas semanas, o governo brasileiro concordou em lançar mão de algumas medidas para tentar reduzir as vendas de produtos brasileiros para a Argentina. A principal delas foi a suspensão de financiamento do Proex nas exportações para os países do Mercosul.
Na tentativa de um entendimento sem causar mais traumas à relação comercial dos dois países, tanto o governo brasileiro quanto o argentino estão incentivando negociações diretas entre representantes de empresários dos dois países.
"O acordo que está sendo negociado entre a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a União Industrial da Argentina (UIA) vai nos poupar muito trabalho", diz Jorge Campbel, secretário de Relações Econômicas Internacionais da Chancelaria argentina.
Segundo Lampreia, os empresários podem decidir entre si, setor a setor, o estabelecimento de normas de contenção para superar o período de crise sem maiores prejuízos para ambos os lados. "Poderá ser contenção de preço ou de volumes exportados, mas contanto que seja um acordo entre empresas", diz o ministro.
Em março, ainda sem data marcada, representantes dos empresários dos dois países vão se reunir para discutir os principais pontos do conflito. Segundo os argentinos, a desvalorização do real frente ao dólar atinge com maior intensidade as indústrias alimentícia (especialmente as vendas de frango), têxtil e de calçados.
Rompimento - Para o ministro Lampreia, a adoção de medidas governamentais de salvaguarda neste momento poderia representar o rompimento do acordo do Mercosul. "Estamos dispostos a sentar e conversar sobre problemas setoriais", diz o ministro. "Mas não vamos aceitar a idéia de salvaguarda, embora não sejamos insensíveis nem desinteressados quanto aos problemas argentinos."
Cauteloso em suas observações, Lampreia argumenta que não há como firmar um acordo mais amplo, baseado nos efeitos de uma crise que classificou de temporária. "Não conhecemos a dimensão dessa crise e medidas assim poderiam introduzir um retrocesso no Mercosul", afirmou.
Segundo ele, o governo já recebeu declarações formais do presidente argentino, Carlos Menem, do ministro da Indústria e Comércio, Alieto Guadagni, e do ministro das Relações Exteriores
Guido di Tella, de que a Argentina não adotará nenhuma medida sem consultar os parceiros do Mercosul.

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