Brasil acordou para crimes raciais em 2020
Negros seguem como os maiores alvos dos assassinatos, da letalidade policial, do encarceramento e, agora, do coronavírus
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terça-feira, 29 de dezembro de 2020
Negros seguem como os maiores alvos dos assassinatos, da letalidade policial, do encarceramento e, agora, do coronavírus
THAIZA PAULUZE 
São Paulo - Quanto mais forte é a opressão, maior é a reação. Essa teoria talvez explique as respostas aos atos de racismo em 2020 no Brasil. Mas, no ano em que parece que o país acordou para a desigualdade racial, em protestos, nas urnas, na imprensa e nas redes sociais, os negros seguiram, mesmo em meio a pandemia, como os maiores alvos dos assassinatos, da letalidade policial, do encarceramento, do desemprego, da pobreza e do coronavírus.
Dessa vez, no entanto, as imagens de brutalidade parecem ter causado maior impacto, como o espancamento de Beto Freitas no Carrefour em Porto Alegre na véspera do Dia da Consciência Negra. A cidade elegia pela primeira vez na história cinco vereadores negros. A ideia era comemorar o feito no 20 de novembro. Mas acabou por ser uma data de dor e protesto.
Um mês depois da morte, no entanto, um ato esvaziado lembrava o crime. Tinha umas 50 pessoas, entre familiares, amigos próximos, vizinhos e ativistas. O supermercado seguia aberto, cheio de clientes - alguns chegaram a xingar o grupo, com gritos de "vão trabalhar, vagabundos".
"Quando acontece, todo mundo se manifesta. Depois, voltam ao mesmo estabelecimento. A gente dizia: 'Você sabe que está indo comprar sua ceia de Natal onde há 30 dias uma pessoa foi espancada até a morte, né?'", diz a ativista gaúcha Winnie Bueno.
Se o assassinato de George Floyd, nos EUA, fez muitos despertarem para o debate racial em 2020, o movimento negro nunca dormiu, diz. "Desde os meus 16 anos acompanho os esforços para denunciar violência e desigualdade. Isso nunca esteve silenciado para parte significativa da população negra", afirma ela, aos 32. "É inegável que neste ano houve lampejos de empatia, com famosos se colocando no debate antirracista. Mas foram ações pontuais e episódicas, não estruturais."
E o racismo é mais do que uma ofensa ou um crime, afirma Amanda Pimentel, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. "É a distribuição desigual de bens materiais, da educação, das oportunidades de trabalho entre negros e brancos até classificar determinados comportamentos como indicativos de criminalidade, colocando toda uma raça como suspeita."
"O perfil das vítimas de violência não muda, continua sendo o jovem, negro e pobre", afirma Pimentel. Entre as crianças e adolescentes mortos pela polícia no país, 69% são negras. É a mesma cor de 74% do total de vítimas de crimes letais. Estatística que tende a se agravar com a flexibilização da posse e porte de arma de fogo, segundo a pesquisadora. "A maioria dos homicídios usa esse instrumento", diz.
O movimento negro agora briga para que a matança de negros seja classificada como genocídio. "Temos que chamar pelo que é. Não dá pra fingir que não há uma morte sistemática da população negra", diz Pablo Nunes, do Cesec (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania).
Já a Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio tem feito campanha pelo afastamento de policiais acusados de assassinatos em São Paulo. "Os policiais continuam onde cometeram o crime e ameaçam os familiares e amigos da vítima. Só são afastados se tiver denúncia e for condenado. Mas como vai ter denúncia se não pode falar? As pessoa vivem sob o medo", diz a psicóloga Marisa Feffermann, que acompanha casos de letalidade policial pela Rede.
Também são pretos e pardos os policiais que mais morrem. "O Brasil é um dos países onde mais se mata policiais, e 65% dos praças [soldados, cabos, sargentos e subtenentes] são negros. A questão racial afeta internamente", afirma.


