Brasil acompanha de perto crise no Paraguai
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segunda-feira, 22 de março de 1999
Por Sílvia Faria 
Brasília, 23 (AE) - O Itamaraty e o Palácio do Planalto acompanharam atentamente, desde as 10h , os desdobramentos do assassinato do vice-presidente paraguaio, Luis María Argaña, preocupados principalmente com os efeitos de uma crise política sobre o Mercosul, já atropelado pelo impacto da instabilidade econômica brasileira. Nas conversações que tomaram todo o dia, tudo que se temia e se queria evitar era a palavra "golpe".
Antes mesmo da confirmação da notícia, que circulava extra-oficialmente no Paraguai, o presidente Fernando Henrique Cardoso foi informado pelo chefe do Gabinete Militar, general Alberto Cardoso, e depois pelo Itamaraty, por meio do embaixador Gélson Fonseca. Por volta do meio-dia, Fernando Henrique conversou por telefone com o próprio presidente paraguaio Raul Cubas Grau.
Uma intensa troca de telefonemas entre as embaixadas brasileira, paraguaia e argentina, e com o próprio vice-chanceler argentino, Guido di Tella, e o secretário-geral do Itamaraty, embaixador Seixas Corrêa, denotavam o nível de preocupação com o episódio, num delicado momento econômico para o bloco. De tarde, o presidente Fernando Henrique discutiu longamente a crise do Paraguai com o presidente da Argentina, Carlos Menen, e acertaram que vão continuar acompanhando a evolução do caso.
"O Brasil tem por norma não interferir em questões internas de nenhum país. O relevante, do ponto de vista da política externa brasileira, é a manutenção da ordem constitucional", salientou Seixas Corrêa, àquela hora sem informações precisas sobre a motivação do atentado. Só se sabia da morte do vice-presidente, por homens usando uniforme das Forças Armadas do Paraguai. Mas nenhuma informação caracterizava uma iniciativa institucional militar. Os diferentes grupos políticos paraguaios faziam acusações mútuas durante todo o dia e ninguém assumiu a autoria do atentado, conforme fontes do Itamaraty.
"Não vamos prejulgar", ressalvava o cauteloso secretário- geral, entre os vários telefonemas que atendeu durante o dia para tratar do assunto.
Nenhuma providência foi tomada para retirar brasileiros do Paraguai, mesmo porque não se caracterizava um evento como uma guerra civil.
O Brasil não utiliza dispositivos de intervenção militar, em caso de golpe que ameace a ordem constitucional de um país vizinho. A manifestação de protesto é sempre feita por vias diplomáticas, diretamente ou por meio de organismos internacionais, como a Organização dos Estados Americanos (OEA). "Qualquer manifestação brasileira, individual ou como membro do Mercosul, será feita por meios diplomáticos", afirmou o embaixador.
A maior preocupação do momento é evitar que um país membro seja excluído do bloco econômico, que está vivendo turbulências decorrentes da crise econômica. O Brasil, como a economia líder da região, tem maior peso nas negociações e acaba sendo o maior responsável pela interlocução junto ao Mercosul. Pela cláusula democrática do acordo entre os países do bloco, o desrespeito à constituição é motivo suficiente para excluir um parceiro do mercado comum.


