Brasiguaios fecham ponte por 3 horas
Valmir Denardin
De Foz do Iguaçu
Um grupo de brasiguaios (agricultores brasileiros que vivem no Paraguai) fechou ontem, durante três horas, a Ponte da Amizade - única ligação rodoviária entre os dois países. O protesto cobrava das autoridades brasileiras e paraguaias uma solução para a invasão de suas propriedades por sem-terra paraguaios, conhecidos no país como campesinos.
Segundo o líder brasiguaio Lindomir Bernardi, 45 anos, nos últimos dois meses pelo menos 35 famílias de brasiguaios tiveram suas áreas - com tamanho máximo de 50 hectares - invadidas. Na maioria dos casos, os moradores foram expulsos, as casas das propriedades saqueadas e depois queimadas e os animais, roubados.
Bernardi acusa as autoridades paraguaias e o Ministério das Relações Exteriores brasileiro de não tomar providências para resolver o problema. Até ontem, a Justiça paraguaia não havia concedido nenhuma reintegração de posse das propriedades de brasiguaios invadidas nos últimos dois meses.
Há cerca de 300 mil brasileiros e seus descendentes vivendo na região leste do Paraguai, fronteira com os Estados do Paraná e do Mato Grosso do Sul, principalmente nos departamentos (o equivalente a Estados) de Alto Paraná e Canindeyú. O padre José Fernandes, de 61 anos, integrante da Pastoral Social de Ciudad del Este, disse à Folha que, nos últimos dois anos, cerca de 5 mil brasiguaios venderam suas propriedades e fugiram para o Brasil, depois de ter sido ameaçados pelos campesinos.
O protesto dos brasiguaios começou às 11 horas. O número de manifestantes variou de 400 pessoas (de acordo com estimativa da Polícia Rodoviária Federal) e mil (segundo os organizadores). Com faixas e cartazes, o grupo ocupou a cabeceira do lado brasileiro da ponte, impedindo a passagem de veículos nos dois sentidos. O trânsito de pedestres permaneceu livre.
Diariamente, cerca de 30 mil pessoas e 18,5 mil veículos cruzam a Ponte da Amizade. Após o bloqueio, em pouco tempo formou-se um congestionamento de aproximadamente três quilômetros de extensão, nos dois lados da ponte. Houve um princípio de tumulto, mas logo contido pela polícia.
O inspetor de Operações da Polícia Rodoviária Federal em Foz do Iguaçu, Marcos Hoss Malmann, intermediou o fim do protesto. Os brasiguaios elaboraram uma lista com dez reivindicações (leia quadro ao lado), que deverá ser entregue a autoridades brasileiras e paraguaias.
A ponte foi liberada às 14h50. Os sem-terra deram prazo até segunda-feira para ter as reivindicações atendidas. Caso contrário, eles ameaçam voltar a interditar a ponte.
Invadiram nossa propriedade e hoje vivemos na casa de amigos Fátima Solange Ross, 39, cujo sítio de 12,5 hectares foi invadido em maioCom medo, 5 mil brasiguaios já venderam tudo e voltaram José Fernandes, 61, padre católico, da Pastoral Social de Ciudad del EsteAS PRINCIPAIS REIVINDICAÇÕES
- Agilização na emissão de documentos das terras de brasiguaios
- Troca de policiais que atuam nas regiões de Puerto Índio e e Mbaracayú, acusados de apoiar os campesinos
- Atuação nessas duas regiões do Grupo Especial de Operações da Polícia Nacional, considerado mais isento, para dar segurança aos brasiguaios
- Concessão pela Justiça paraguaia de mandados de reintegração de posse das áreas invadidas
- Fechamento das rádios piratas, acusadas de insuflar os campesinos





