Branco que te quero branco. As manifestações de anteontem, em torno do Basta! Eu Quero Paz foram sensibilizantes, ajudaram a formar consciência e reforçaram a idéia de que este problema crônico, a violência, é de todos, e não de alguns.
Juntos para um debate, estive com o professor Miguel Reale Junior, da Universidade de São Paulo, e o ex-secretário da Segurança e Justiça do Rio Grande do Sul, José Bisol. Reale, que faz parte da comissão que procura mais uma vez reformular a nossa legislação penal, acha que o Estado deve se fazer presente nas áreas carentes e que as políticas públicas são importantes como fatores preventivos da criminalidade. Bisol acredita que tenhamos autoridades encasteladas em Olimpos, distante da realidade, insistindo em aplicar leis para uma minoria, gerando assim impunidade e descrédito.
Na semana passada, escrevi aqui que vestir-se de branco e acender velas, como aconteceu na última sexta-feira em vários pontos do país, eram atos simbólicos que não podiam ser encerrados dentro de si.
São vários pontos que, como sociedade, podemos e devemos analisar. Um deles é que quando se dá importância prioritária aos crimes contra o patrimônio (como se ser roubado ou furtado pudesse ser mais grave do que ser assassinado) não se leva em conta uma das realidades brasileiras, o chamado ‘‘crime do colarinho branco’’. O saudoso professor Manoel Pedro Pimente, da USP, já dizia que a expressão serve para designar ‘‘o comportamento reprovável dos homens de negócio que, desviando-se de suas condutas profissionais e da linha moral estrita, obtêm vantagens indevidas, causando danos à coletividade’’. De fato, se fizermos a soma do valor roubado ou furtado pelos habitantes de nossos cárceres e compará-lo com desvio de verbas por parte de altos escalões da política e da administração pública, por exemplo, verificaremos o absurdo: os estragos causados à sociedade pela turma do colarinho branco é infinitivamente superior de que os que, roubando e furtando, infringindo os artigos 157 e 155 do Código Penal, cumprem penas nas prisões.
Aqui, o branco se torna duplamente símbolo. Escolhido como cor de uma campanha de mobilização e, ao mesmo tempo, expressão de uma criminalidade por vezes sutil, camuflada, mas nem por isso menos perigosa. Branco que te quero branco: maravilha, se alavanca mobilizadora, conscientizadora, despertando mentes e corações para um conjunto de atitudes que devem ser tomadas, colhendo-se implacavelmente, amanhã, tudo aquilo que hoje se planta.
Branco que não te quero branco: a criminalidade que ocupa os gabinetes elegantes, possui infra-estrutura, desfruta do Poder e utiliza bens públicos como se fossem propriedade particular. Porque um white collar crime, sozinho, pode causar prejuízos idênticos à soma de muitos pequenos furtos e roubos.
Há várias diferenças entre um e outro. Um deles é a chamada ‘‘prisão especial’’. O colarinho branco que teve o privilégio de cursar uma faculdade tem o direito de ficar separado dos mal-aventurados que não podem ser reeducados, como diz a teoria, simplesmente porque nunca foram educados. Ou seja: todos são iguais. Mas alguns são mais.
Acordar para essa realidade ajuda a compreender que na sociedade de hoje é preciso definir claramente o que é nocivo, pernicioso, corruptor e impune para se tomar as medidas adequadas, que impeçam tais comportamentos de se transformarem em fatores de constante pressão e intimidação daqueles que preservam valores éticos e morais.
Branco que pode ser ainda mais branco: profilaxia, limpeza, preservação, proteção, valorização da vida, restrição aos valores da morte, da exclusão, da falta de espaço, da ausência de oportunidades.
Branco que não quer ser branco: falar uma coisa e fazer outra, ser a antítese na prática das posições teóricas, consider sempre dos outros todo tipo de qualquer responsabilidade.
Mas não existe só o branco. Existe o negro, o verde, o azul, o amarelo, combinações de cores, o incolor. Cor como analogia. Cor como parábola. Cor como pedagogia. Cor marcante. Cor indiferente. Nossa cor, cor da nossa sociedade, aprendendo a pensar, a fazer, a acreditar, a transformar. É assim que se diz basta. É assim que se diz eu quero paz.

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