Bragança diz que feriu amizade de 40 anos com Lopes
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terça-feira, 27 de abril de 1999
Por Nelson Breve e Adriana Fernandes 
Brasília, 28 (AE) - O economista Luiz Augusto Bragança começou a depor na CPI do Sistema Financeiro às 19h22, após assinar o termo de compromisso da comissão. Bragança disse que conhece o ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes desde 1964, quando ambos ingressaram na Faculdade de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Segundo seu relato, eles se tornaram amigos e frequentavam a casa um do outro. Separaram-se quando Lopes fez pós-graduação na Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro e ele, Bragança, na Fundação Instituto de Pesquisa Econômica (Fipe) da Universidade de São Paulo.
Entretanto, como informou, continuaram mantendo contatos e, quando foram fazer pós-graduação nos Estados Unidos - Lopes foi para Harvard e Bragança para Chicago - também continuaram se visitando. Segundo Bragança, o relacionamento entre ambos é íntimo, pois Lopes é padrinho de sua filha. Bragança disse, no entanto, que nunca teve relacionamento profissional com Francisco Lopes nem com a Macrométrica.
Luiz Augusto Bragança disse ainda que conheceu o ex-controlador do Banco Marka Salvatore Cacciola em fim de 1997, por intermédio do economista Rubem Novaes, também seu amigo. Naquela época, Cacciola estava preocupado com a crise asiática e as consequências na economia brasileira. Ele relatou que ele e Novaes prestaram consultoria para Cacciola, e foram remunerados, observando que Cacciola "gostou demais" de seu trabalho. Posteriormente, continuou mantendo contatos com Cacciola, porém não mais como consultor.
Bragança disse que, por causa de sua atividade de consultor, tinha interesse em manter contato com uma pessoa exitosa no mercado financeiro. Disse que, antes do dia 14 de janeiro deste ano, nunca havia interferido a favor de Cacciola ou de qualquer outra pessoa junto a Lopes. Disse que não foi com Cacciola ao BC no dia 13 de janeiro deste ano, véspera da mudança do regime cambial, pois o dono do Marka queria manter um contato institucional com o Banco Central. Disse, também, que viajou com Cacciola para Brasília no dia 13 de janeiro, porque este lhe pediu "encarecidamente" que o acompanhasse.
Afirmou ter ficado com pena de Cacciola, que era um homem rico e perdeu tudo 24 horas depois da mudança do regime cambial. "Ele parecia um náufrago no Oceano Pacífico e queria uma bóia para sobreviver", comentou.
Ainda em seu depoimento, o economista Luiz Augusto Bragança disse que o ex-controlador do Banco Marka Salvatore Cacciola sabia de sua amizade com o ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes e queria ter acesso à diretoria do BC, não necessariamente ao então presidente. Embora tenha relutado a princípio, não viu nenhum mal em intermediar um encontro entre ambos.
Bragança disse que Cacciola lhe informou que não estava conseguindo expor seus argumentos à diretoria do BC no dia 13 e lhe pediu que intercedesse junto a Lopes. No dia seguinte de manhã, ainda conforme seu relato, Bragança foi à casa de Lopes por volta das 8 horas, mas, ao expor a questão, foi repreendido por este, que lhe lembrou que a amizade dos dois de 40 anos não incluía nenhum tipo de favor relacionado ao BC. "Não sei o que você está fazendo aqui", teria dito Lopes, segundo Bragança.
"Este assunto será tratado pelos trâmites que o Banco Central tem", teria dito ainda o então presidente do BC. Bragança disse que ficou constrangido por ter ferido uma amizade de 40 anos e deixou a casa de Lopes por volta de 8h30 do dia 14 de janeiro. Posteriormente, Cacciola lhe teria falado que, aparentemente, havia encontado uma solução, mas que as condições o inviabilizariam para sempre no mercado financeiro e que ele teria de fechar o banco.
Bragança contou, no depoimento, que disse a Cacciola que não poderia fazer mais nada por ele. Afirmou também, em resposta ao relator da CPI, senador João Alberto Souza (PMDB-MA), que não havia rumores de quebra do Banco Marka antes de 13 de janeiro. Disse, também, que não tem nenhuma relação com o Banco Fonte Cindam, mas que, antes da fusão ele foi contratado pelo Banco Fonte para implementar um sistema para administração de risco.
O economista Luiz Augusto Bragança disse que o único pleito que lhe fez o ex-controlador do Banco Marka, Salvatore Cacciola foi para que o ajudasse a expor à diretoria do Banco Central a situação do Marka. Segundo Bragança, Cacciola se sentia mais seguro com sua presença em Brasília, com base no fato de que, com sua antiga amizade com o ex-presidente do BC Francisco Lopes. Bragança disse também que ficou "sensibilizado" a viajar a Brasília em virtude da "situação desesperadora" em que estava Cacciola.
O economista afirmou que a primeira pessoa a lhe transmitir o desespero de Cacciola foi o também economista Rubem Novaes, mas "a transmissão emocional do desespero" foi feita pelo próprio Cacciola. Bragança disse que, na pressa, embarcou para Brasília sem ter sequer calçado as meias.


