Bragança confirma ter procurado Lopes para interceder em favor de Cacciola
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de abril de 1999
Por Irany Tereza 
Rio de Janeiro, 23 (AE) - O economista Luiz Augusto Bragança confirmou em depoimento na tarde de quinta-feira (22) à diretoria do Banco Central, em Brasília, que procurou o então presidente do BC, Francisco Lopes, no dia 14 de janeiro, em sua casa para interceder a favor de Salvatore Alberto Cacciola, dono do Banco Marka.
Bragança se declarou "amigo íntimo do sr. Francisco Lopes desde os tempos de faculdade na UFRJ" e informou ter pedido a Lopes para receber Cacciola. Segundo seu relato à Comissão de Sindicância do BC, que apura o suposto fornecimento de informações privilegiadas a instituições financeiras por integrantes do BC, foi repreendido por Lopes.
O depoimento de Bragança ocorreu no mesmo dia e hora em que Cacciola era ouvido pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bancos, no Senado, e, em todos os aspectos, coincide com as declarações prestadas pelo banqueiro.
Espontaneamente, no fim da audiência, Bragança disse que nunca teve nenhum relacionamento com o Banco Boavista ou qualquer de seus dirigentes. O Boavista está também sob suspeita de receber informações privilegiadas.
Bragança confirmou também que a remuneração que recebeu de Cacciola foi em 1997 por um serviço de consultoria feito em conjunto com Rubem Novaes. O único ponto de discordância é o valor do pagamento. Segundo o advogado de Bragança, João Carlos Castellar, embora não tenha informado ao BC, seu cliente lhe disse ter recebido R$ 60 mil pelo serviço, e não R$ 80 mil, como afirmara Cacciola à CPI.
Bragança - apontado em reportagem da revista Época como um dos informantes no suposto caso de venda de dados do BC para instituições financeiras, ao lado de seu irmão, Sérgio Bragança - disse que foi a Brasília com Cacciola apenas para prestar um favor.
"Ele recebeu, no dia anterior, um telefonema desesperado de Cacciola, pedindo ajuda aos prantos", revelou o advogado Castellar. "Me contou até que ficou com medo de que Cacciola estivesse sofrendo um enfarte." No depoimento, Luiz Carlos Bragança, disse que não recebeu nada pela ida a Brasília e descreveu sua conversa com Francisco Lopes de forma curta.
Ao presidente do BC ele teria dito, segundo sua versão, que Cacciola queria apenas expor a situação do Banco Marka à diretoria do BC. Lopes o teria repreendido, de acordo com o mesmo relato, "afirmando que o assunto era matéria interna do Banco Central e que não admitia, a quem quer que fosse, fora do âmbito do Banco Central, fazer comentário sobre este ou qualquer outro assunto da competência do BC".
Segundo o consultor, depois desta repreensão, o assunto foi encerrado. Bragança fez questão de falar sobre sua ligação com Francisco Lopes, que é padrinho de sua filha. Mas negou ter trabalhado na Macrométrica, consultoria fundada por Lopes, que tem hoje entre seus sócios Sérgio Bragança. Disse também que ficou surpreso ao saber do documento assinado por seu irmão, informando sobre a manutenção, sob sua custódia de US$ 1,650 milhão pertencentes a Lopes em contas no exterior.


