Bradley surge como ameaça real a Gore Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 12 (AE) - Bill Bradley virou nome nacional nos anos 60 jogando basquete para o New York Nicks. Na política, no entanto, seu forte nunca foi o espírito de equipe. Nos 18 anos que passou no Senado como representante de Nova Jersey, Bradley nem sempre votou com seus colegas democratas. Em 1995, quando anunciou que não se candidataria a uma reeleição considerada tranquila, denunciou os dois partidos do Congresso e declarou a política norte-americana "falida".
Agora, Bill Bradley quer ser presidente. Sua candidatura não deve ser descartada como uma mera curiosidade política, apesar da impressão em contrário criada pelo favoritismo do vice-presidente Albert Gore e do governador do Texas, George W. Bush, para disputar a Casa Branca, em novembro do ano que vem. Não são apenas os problemas de decolagem que a campanha de Gore enfrenta que alimentam as esperanças do ex-senador.
Antes mesmo de o vice-presidente cometer a proeza de contratar dois assessores para posições importantes que já foram sócios numa firma de consultoria, mas brigaram e não se falam há sete anos, Bradley já mostrara que deve ser levado a sério.
Desde o anúncio de sua candidatura, há dois meses, não menos de um terço dos democratas tem dito que consideram o ex-senador o melhor nome para o partido tentar manter o controle da Casa Branca sem ter que carregar a pesada bagagem política do presidente Bill Clinton, a quem Gore está umbelicalmente ligado apesar das tentativas recentes de distanciamento. Não é pouco para o desafiante de um vice-presidente de um governo que deu ao país sua maior expansão econômica em tempos de paz e acaba de ganhar uma guerra. Mais importante, muitos dos simpatizantes do ex-senador têm bolsos fundos. Eles já contribuíram com US$ 11 milhões para sua campanha, o suficiente para tornar Bradley uma ameaça a Gore, que até agora levantou apenas US$ 18 milhões comparados com os mais de US$ 30 milhões angariados por Bush.
Ainda faltam meses para o início das eleições primárias e mais de um ano para as convenções nacionais que escolheram os candidatos dos dois partidos. Mas as dúvidas sobre a capacidade do monótono Gore de empolgar um eleitorado aparentemente farto de Clinton já começam a produzir rachaduras importantes no edifício democrata. Dez dias atrás, o senador de Nebraska, Robert Kerry, um ex-governador e herói da guerra do Vietnã, anunciou seu apoio a Bradley.
No último fim de semana, a campanha de Gore mostrou que está preocupada com a ascenção de seu único desafiante: encarregou-se de tentar reduzir o impacto de mais uma má notícia, alertando os jornalistas que o senador Daniel Patrick Moynihan, de Nova York, também deverá endossar a candidatura de Bradley. Um outro simpatizante do ex-senador é o popularíssimo ex-astro do basquete Michael Jordan, que já prometeu comparecer a eventos da campanha.
Professoral e às vezes arrogante, Bradley não é um líder carismático ou bom de palanque. Mas, comparado com Gore, chega a ser um orador eloquente. Um democrata típico em questões como o direito ao aborto, a ação afirmativa na questão racial e o maior controle das armas, o ex-senador diverge de seu partido na área da educação, onde vê mérito numa proposta republicana de subsídio público ao ensino privado. No Senado, foi um raro crítico das estratégias tentadas inicialmente para resolver a crise da dívida dos países em desenvolvimento nos anos 80 e um dos primeiros a interessar-se por um plano alternativo de securitização dos débitos apresentado pelo então ministro da Fazenda e atual ministro de Ciência e Tecnologia do Brasil, Luiz Carlos Bresser Pereira, e que seria adotado pelo governo de George H. Bush, em 1989, como o nome de plano Brady.
Embora goste de se apresentar como um político pouco convencional, Bradley é capaz de dar as piruetas necessárias para ganhar votos, como qualquer outro praticante do ofício - o que, segundo seus simpatizantes, apenas o qualifica para ocupar a Casa Branca.
No Senado, foi um dos mais persistentes adversários dos subsídios federais para a produção de etanol a partir do milho, que custam anualmente US$ 600 milhões para os contribuintes, metade dos quais vão para uma empresa, a multinacional Archer Daniels Midland. Mas, nas últimas semanas, a necessidade de ir bem na prévia do estado agrícola de Iowa, que abrirá a corrida à casa Branca, em fevereiro do ano que vem, levou Bradley a descobrir as virtudes do programa. Da mesma forma, durante sua carreira no Senado, e depois que a trocou por um emprego de professor visitante na Universidade de Stanford, Bradley denunciou o poder corruptor do dinheiro na política. Mas isso não o impediu de ganhar centenas de milhares de dólares nos últimos anos fazendo discursos para grupos de empresários empenhados em influenciar decisões políticas.
Um homem metódico e que dissimula sua ambição política numa atitude de estudado distanciamento em relação àquilo que está fazendo, o ex-senador marcou sua passagem nas quadras pela competência com que jogava sem bola. É o que está fazendo agora na disputa com Gore, de quem não se aproximou nos anos em que ambos conviveram no Senado. "Eu acho que ele se preocupava muito com guerra nuclear e mísseis", Bradley limitou-se a dizer recentemente, respondendo a uma pergunta de um jornalista sobre o ex-senador do Tennessee.





