Rio de Janeiro - Uma regulamentação mais rigorosa, que restrinja a entrada de profissionais no mercado de transporte de cargas, é condição fundamental para reduzir o número de acidentes com morte nas rodovias brasileiras. A afirmação foi feita ontem pelo diretor do Centro de Estudos em Logística da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Paulo Fleury. De acordo com o professor, também é preciso aumentar a fiscalização nas estradas.
Fleury apresentou um estudo segundo o qual, a cada ano, são registrados 200 mil acidentes e 34 mil mortes nas estradas brasileiras. O número é maior que o de qualquer país da Europa e o terceiro mais alto da América Latina, diz a pesquisa. Os prejuízos com perda de carga motivados por acidentes somam, anualmente, R$ 2 bilhões e superam em quase três vezes as despesas por roubos. Se forem considerados os prejuízos à vida, ao patrimônio e ao veículo, as estimativas de perda podem alcançar até R$ 9 milhões, acrescenta o estudo.
O sistema rodoviário no Brasil, atualmente, não tem nenhuma barreira de entrada. Qualquer pessoa pode tirar uma carteira especializada, comprar um veículo com 30 anos de uso e virar um prestador de serviço de transporte. Não interessa a experiência que teve ou o treinamento por que passou. Isso aumenta a oferta de transportadores e o preço do serviço cai. Para sobreviver, o caminhoneiro reduz a preocupação com a manutenção do veículo, aumenta o número de horas dirigidas e sobrecarrega o caminhão com volume de material, afirmou Fleury.
Ele explicou que a regulamentação do setor deveria exigir treinamento dos motoristas, um responsável técnico e garantia de manutenção do veículo, além de incentivar a renovação constante da frota, através do aumento da taxação de acordo com o envelhecimento dos veículos.
Em todos os países, à medida que o veículo vai ficando mais velho, vai aumentando a taxação sobre ele. Os veículos mais novos têm tecnologias que reduzem a emissão de poluição e contam com equipamentos de segurança mais modernos, por exemplo. Aqui no Brasil é o contrário, quanto mais velha a frota, menos impostos se paga, reclamou.
Segundo o diretor da Associação Brasileira de Caminhoneiros Autônomos (Abicam), José da Fonseca Lopes, a idade média da frota de caminhões no país é de 18 anos. Ele também acredita que a melhoria das condições de trabalho dos caminhoneiros pode contribuir para a redução do número de acidentes. O nosso mercado é predatório. Precisamos trabalhar em média 19 horas por dia, muitas vezes, com sobrecarga no caminhão, disse.
Lopes destacou ainda que a falta de conservação das estradas chega a encarecer em 30% o valor do frete rodoviário. Quando o caminhão quebra, o profissional acaba utilizando um produto de segunda linha, comprado às vezes no ferro velho.

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