Porto Alegre - O militante francês antiglobalização José Bové, porta-voz da Confederação de Agricultores franceses, estimou que ‘‘os únicos combates perdidos são os que não se começam’’, e daí o papel importante do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em entrevista à agência de notícias France Presse.
Que lições podemos tirar da situação da Argentina?
Há dois anos que várias pessoas alertam sobre Argentina. Os dirigentes desse país fizeram tudo o que o FMI lhes pediu: privatizar, diminuir os serviços do Estado. Hoje é a bancarrota, a falência desse sistema. Agora existe uma brecha entre a população das ruas, também falida, e os que administraram o país. E o FMI não reconhece que é o responsável por esta crise! Alguns dizem que Argentina está nesta situação porque não pode exportar seus produtos por causa do protecionismo europeu: é incrível, é o modelo ideológico dominante que está em questão. Isso deveria tornar o FMI um pouco mais humilde quanto à forma em que considera que o mundo deve ser administrado. O FMI desestruturou um país, hoje Argentina nada mais é do que uma sucursal de empresas financeiras.
O que se passou concretamente desde a primeira edição do Fórum Social Mundial?
Os debates devem se refletir ao nível de lutas e no ano passado tivemos uma grande discussão sobre as patentes. Também realizamos uma intervenção no G8 para dizer que a situação da saúde nos países do sul, em particular quanto à aids, não é sustentável e em Doha, na reunião da OMC, os governos reconheceram que a saúde deve ficar antes do mercado, permitindo a fabricação de medicamentos genéricos. Estamos aqui para fazer a união entre os dois, para tentar ganhar terreno, mas nosso objetivo não é ter todas as respostas.
Quais são as principais frentes de oposição a levar adiante?
Temos combates em curso; por exemplo, a questão da taxa Tobin aos fluxos financeiros foi discutida na maioria dos países desenvolvidos. Quanto à agricultura e os OGM (organismos geneticamente modificados), continuaremos o combate enquanto não houver uma legislação internacional. O movimento internacional de agricultores irá na próxima cúpula da FAO para fazer o balanço dos danos causados desde a criação da OMC. Durante o fórum está prevista uma marcha contra a criação de uma Área de Livre Comércio das Américas (Alca) promovida pelos Estados Unidos mas com resistência dos países da América Latina. Esse tipo de acordo é um laboratório que permite aos Estados Unidos colocarem as instituições internacionais diante do fato consumado, isto é, a impossibilidade de intervir num espaço de mercado dominado por eles. Os únicos combates perdidos são os que não se começam.

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