NAÇÓES UNIDAS, 07 (AE-AP) - O ex-secretário-geral da ONU Boutros Boutros-Ghali deu o troco aos Estados Unidos em suas memórias, acusando Washington de usar e abusar das Nações Unidas e negar a ele um segundo mandato pelo bem da reeleição do presidente Bill Clinton.
Em "Imbatível: Uma saga EUA-ONU" (Unvanquished: A US-UN Saga), Boutros-Ghali vira a mesa em relação à administração Clinton, que tem acusado as Nações Unidas pelo fracasso das missões de paz na Bósnia, Somália e Ruanda. Ele diz que Washington foi grandemente responsável pelos fracassos.
Boutros-Ghali afirma que a ONU se tornou impotente para salvar milhares de vidas nesses conflitos porque seu mais poderoso membro não estava disposto a autorizá-la a agir.
Enquanto sua argumentação possa ser simplista, legisladores e integrantes das administrações americanas após o fim da Guerra Fria realmente recusavam-se a intervir em conflitos externos onde houvesse pouco interesse direto dos EUA.
Muito deste sentimento pode ser traçado do assassinato de 18 soldados americanos na Somália em 1993 e da crença em Washington de que países europeus deveriam tratar dos conflitos em seu próprio quintal.
A ira de Boutros-Ghali no livro é dirigida particularmente para Madeleine Albright, que então ocupava seu primeiro posto diplomático como embaixadora dos EUA na ONU.
Boutros-Ghali a descreve como uma mensageira inepta e mal- informada da vacilante política exterior de Clinton cujo objetivo pessoal era removê-lo do cargo depois de seu primeiro mandato - apesar do apoio de outros membros da ONU.
As relações entre EUA e ONU chegaram a seu nível mais baixo durante o termo de Boutros-Ghali, 1992-1996, e portanto não é surpresa que suas lembranças se concentram nas aparentemente diárias batalhas com a administração Clinton, muitas em relação ao US$ 1 bilhão que Washington deve à organização.
O livro apesar disso joga luzes sobre o nível de rancor que existia atrás das portas fechadas das reuniões do Conselho de Segurança e nos encontros privados em Washington e Nova York.
"Levou algum tempo para eu perceber plenamente que os Estados Unidos têm pouco interesse em diplomacia", escreveu Boutros-Ghali sobre as relações EUA-ONU. "O poder é suficiente".
Mais significativamente, Boutros-Ghali culpa a amarga campanha presidencial entre Clinton e o ex-senador republicano Bob Dole por ele ter se tornado o primeiro chefe da ONU a ser negado um segundo mandato.
Jogar lama na ONU passou a ser um esporte popular de Dole na campanha, tanto que Clinton começou a adotar a mesma tática, escreveu Boutros-Ghali. Albright, desesperada por ser nomeada secretária de Estado no segundo mandato de Clinton, não podia permitir que ele continuasse no cargo depois de ter sido tão desacreditado, diz o diplomata egípcio.
Ela usou o veto solitário que o expulsou do cargo.
Boutros-Ghali parece particularmente irritado com o esforço dos EUA, porque ele mostrou como Washington rejeitou solitariamente o desejo da maioria dos estados-membros da ONU por causa de questões domésticas.
O porta-voz do Departamento de Estado James Rubin - que era o porta-voz de Albright nas Nações Unidas - disse que Albright teve prazer em trabalhar com Boutros-Ghali, mas achou que era importante que o chefe da ONU estivesse "em sintonia" com os Estados Unidos.
"Infortunadamente, o secretário-geral Boutros-Ghali não era capaz de fazer isto", afirmou ele.
Boutros-Ghali relatou diversas situações nas quais os Estados Unidos e as Nações Unidas discordavam, resultando em perda de vidas.
Fatigada depois da Guerra do Golfo e convencida de que havia pouco apoio público para o envio de tropas terrestres dos EUA para a Bósnia, a administração Clinton permitiu que o conflito nos Bálcãs se deteriorasse enquanto usava seu poder no Conselho de Segurança para obstruir a força dos soldados de paz da ONU, escreveu Boutros- Ghali.
Na Somália, Boutros-Ghali lembra aos leitores que os 18 americanos mortos durante um assalto em 1993 em Mogadício eram parte de uma operação lançada pelos EUA sem o conhecimento das Nações Unidas.
Aquele fracasso levou os EUA a imporem restritas condições a novas operações de paz da ONU e a um desinteresse geral em Washington em intervir na áfrica. Por seu lado, isto foi responsável pela falta de ação durante o genocídio em Ruanda, disse Boutros-Ghali.

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