Botox 'devolve' movimentos a crianças que tiveram paralisia
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de março de 2006
Chiara Papali<br> Reportagem Local 
O sorriso no rosto de Elizabet Gomes da Silva, de apenas cinco anos, não esconde: ela está feliz. Satisfeita, mesmo, de poder se segurar sozinha nas grades do berço e dar alguns passos sem cair. A mãe, Itamara Domingues da Silva, de 27 anos, acompanha e comemora cada avanço da filha: Ela deu uma melhorada boa, já está ficando mais durinha, consegue ficar em pé sozinha, e até solta as mãos do berço.
Elisabet é uma das dezenas de crianças que se beneficiam da toxina botulínica (botox) para o tratamento de seqüelas da paralisia cerebral. A substância, que tem seu uso mais conhecido na estética, para suavizar rugas, é uma grande esperança para indivíduos que sofrem de espasticidade (ou rigidez)
muscular.
Na cidade, a inovação é usada no Hospital das Clínicas (HC), ligado a Universidade Estadual de Londrina (UEL), e no Hospital Infantil, da Irmandade Santa Casa de Londrina (Iscal). No HC são atendidas cerca de dez crianças por semana no ambulatório de ortopedia e o tratamento é custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O ortopedista pediátrico Alessandro Giurizatto Melanda explica que a toxina botulínica age relaxando a musculatura no local onde é aplicada. No caso de crianças com espasticidade (ou rigidez) muscular isso significa facilitar seus movimentos e até mesmo permitir que ela caminhe sem ajuda.
É o caso, por exemplo, de crianças que andam na ponta dos pés por causa da rigidez muscular na região. A toxina vai relaxar os músculos e permitir que ela caminhe com mais facilidade. Claro que os benefícios vão depender do grau de comprometimento que a criança tem, mas na maioria das vezes, vai melhorar sua qualidade de vida, pois facilita para ela sentar e facilita que o cuidador faça sua higiene, explica o médico, lembrando que depois do procedimento, é necessário passar por fisioterapia.
Uma das vantagens da aplicação da toxina botulínica, conforme o ortopedista, é a facilidade de aplicação. No ambulatório do HC, a criança passa por uma avaliação criteriosa para determinar se ela terá ou não vantagens com a toxina, além de ter acompanhamento neurológico e de fisioterapia. Medimos os ângulos e os movimentos de cada articulação e fazemos a discussão de cada caso, para só depois determinar se a aplicação será feita, isso porque nem todos os casos se beneficiam, afirma.
Outra grande vantagem do procedimento é que, como o efeito da toxina é reversível, é possível testar o resultado de uma cirurgia, que alongaria determinado músculo. A técnica, segundo o médico, também evita várias cirurgias até a criança chegue na vida adulta.
Isso é extremamente importante porque a cada cirurgia a pessoa perde força muscular, e com o toxina se preserva isso. Algumas crianças precisariam fazer quatro cirurgias até a idade adulta, ressalta. Segundo Melanda, o custo-benefício da cirurgia e da aplicação da toxina botulínica se equivalem, mas esta é mais vantajosa pela menor morbidade.
O efeito da toxina botulínica é algo em torno de seis meses. Depois disso é necessário nova aplicação. No HC, a substância é reaplicada se a criança realmente teve benefício. Nos adultos, a toxina também pode ser usada nos casos de espasticidade muscular, como as vítimas de acidente vascular cerebral.


