Agência Estado
De Brasília
O presidente do Movimento União Brasil Caminhoneiro, Nélio Botelho, disse ontem em Brasília, após conseguir o acordo com o governo, que pretende transformar o movimento ‘‘na entidade mais poderosa do País’’, com influência no mundo. Em apenas 24 horas, o líder passou de ‘‘suposto líder do movimento’’, como foi tratado nas negociações de quarta-feira, a ‘‘porta-voz’’ do movimento. Teve até a prerrogativa de anunciar publicamente as medidas do acordo e divulgar a suspensão de aumento no preço do óleo diesel, enquanto era observado pelos ministros dos Transportes, Eliseu Padilha, do Trabalho, Francisco Dorneles, e da Justiça, José Carlos Dias.
Padilha justificou a mudança de tratamento dizendo que o governo identificou Botelho como líder do movimento, pois nas negociações em São Paulo ele foi apontado por outros 20 líderes como o porta-voz do grupo. O sucesso da paralisação, que ameaçou o abastecimento nas principais cidades do País, foi a concretização de um sonho de Botelho, derrubado em 1985 pelo então presidente José Sarney. Ele foi um dos líderes de um movimento que pretendia criar uma federação dos caminhoneiros. Diante da recusa do governo em aceitar a reivindicação, os caminhoneiros bloquearam a via Dutra. A paralisação durou apenas uma noite: o governo usou o exército para desobstruir a pista. Desde então as atividades sindicais ocupam a rotina de Botelho, que há 15 anos tem seu caminhão dirigido por um motorista contratado. Ele começou a dirigir caminhão aos 25 anos e ficou na atividade por cerca de 18 anos, até 1984. Desde então Botelho investiu na organização do movimento e tem um programa diário na Rádio Globo do Rio.
A condução do movimento fez que em alguns meios do
governo vissem Botelho como uma versão sobre rodas do líder da Força Sindical Luís Antônio de Medeiros. As mesuras não tardaram a aparecer, e segundo o próprio Botelho foi-lhe oferecido até jatinho da Força Aérea para trazê-lo a Brasília, para as reuniões. Ele diz que recusou a oferta ‘‘para manter a independência’’.
Na agenda apertada pela súbita notoriedade, Botelho teve que arranjar um espaço rápido para uma nova reunião com o ministro do Trabalho, antes de voltar ao Rio de Janeiro. No momento de abandonar a ante-sala de Padilha, o líder ainda teve tempo de receber os cumprimentos de políticos.
Apesar das boas relações com autoridades, o líder alerta que a categoria espera que as reivindicações sejamatendida, pois eles não trabalham ‘‘com promessas e fantasias’’. Disse ainda que, se houver fatos que desagradem à categoria, ela poderá se mobilizar novamente. Como solução para reduzir o pedágio para os caminhões, Botelho sugeriu que a tarifa seja aumentada para automóveis e ônibus.

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