A prevenção doméstica contra o mosquito da dengue tem uma nova munição, armazenada na despesa de qualquer cozinha: café. Sem a toxicidade e persistência ambiental dos inseticidas organofosforados - atualmente misturados à areia e colocado em vasos e recipientes de água, onde o mosquito Aedes aegypti pode se reproduzir - a borra de café mata 100% das larvas do transmissor da dengue.
A pesquisa com a borra de café foi inspirada num estudo anterior, com moscas drosófilas (''mosquinha da banana''), e vem sendo realizada nos últimos 3 anos na Universidade Estadual Paulista, campus de São José do Rio Preto, pela bióloga Alessandra Laranja, sob orientação de Hermione de Campos Bicudo. Ela já defendeu um mestrado, provando que a borra é eficiente em condições de laboratório e agora aprofunda a pesquisa, numa tese de doutorado, que testa o novo ''inseticida'' em condições de campo e detalha como as substâncias contidas na borra agem sobre o metabolismo do mosquito.
''Embora a borra de café contenha várias substâncias potencialmente tóxicas para os insetos, acreditamos que a cafeína seja o princípio ativo que mata as larvas'', explica Alessandra. ''A cafeína afeta as esterases, enzimas responsáveis por diversos processos fisiológicos, como a digestão, desenvolvimento juvenil (larvas na segunda fase), reprodução e, principalmente, resistência aos inseticidas químicos.''
O doutorado ainda segue por mais três anos, mas o uso da borra de café já pode ser recomendado nas campanhas de combate ao Aedes aegypti, que nesta época do ano, com o calor, volta a proliferar e fazer vítimas. De acordo com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), só no ano passado foram registrados mais de 280 mil casos de dengue no país, sobretudo nas regiões Sudeste e Nordeste.
As fêmeas de Aedes aegypti põem seus ovos em águas paradas, limpas ou sujas, mesmo em recipientes pequenos. Ali nascem as larvas, que passam por 4 fases antes de se transformarem em pupas e depois em adultos. Apenas as fêmeas se alimentam de sangue, para garantir o desenvolvimento dos ovos, e é nesta fase que transmitem a dengue, após picar pessoas doentes e reter o vírus na saliva, infectando quem for picado em seguida. Além de eliminar as larvas, os testes de laboratório mostraram que a cafeína reduz o tempo de vida das fêmeas adultas.
A pesquisa de Alessandra Laranja foi financiada por uma bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), no valor de R$ 18 mil e ela trabalhou no Laboratório do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce), da Unesp, construído com recursos do programa de infra-estrutura da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). As recomendações relativas ao uso da borra de café contra o mosquito da dengue já estão sendo divulgada pela Vigilância Sanitária de São José do Rio Preto e região, na atual campanha.

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