Com uma pistola feita de sabão e madeira, um grupo de quatro presos liderado pelo assaltante de bancos Marcelo Borelli promoveu ontem, por cinco horas, uma rebelião inédita na Superintendência da Polícia Federal (PF) de Brasília. No motim, que começou às 8h10 quando os presos eram liberados para o banho de sol, os rebelados tomaram o agente Marcos Edilson do Rego Bandeira como refém. Borelli, autor de extensa lista de acusações incluindo crimes em Londrina e em Curitiba conseguiu retornar ao Paraná. Ele chegou a Curitiba ontem às 20h20 e foi levado para a sede da PF.
Após imobilizado com uma gravata no pescoço, o agente Bandeira foi ameaçado com um estoque (uma lâmina fixada num pedaço de madeira) pelo grupo. A ação dos rebelados mobilizou dezenas de policiais federais.
Cinquenta homens do Batalhão de Operações Especiais (Bope), da Polícia Militar do Distrito Federal, também foram chamados ao local. Dez atiradores de eleite do Comando de Operações Táticas (COT), da PF, posicionaram-se em cima do prédio, no lado de acesso ao pátio da carceragem onde o grupo de Borelli mantinha o agente Bandeira refém. A PF temia que os presos pudessem matá-lo.
Devido ao clima tenso, a PF retirou os funcionários do local e proibiu o acesso ao prédio. Enquanto isso, um dos rebelados ligou a cobrar para do celular do agente Bandeira para o advogado do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernadinho Beira-Mar, Adalberto Lustosa de Matos. Ele pedia presença de integrantes da Comissão de Direitos Humanos da Câmara para negociar a libertação do refém e a transferência dos amotinados para seus Estados de origem.
O grupo fez várias ligações para Lustosa e, num determinado momento, ameaçou invadir a cela onde a cantora mexicana Glória Trevi está presa. Com isso, o clima ficou ainda mais tenso na carceragem da Polícia Federal. Além de Trevi, estava na cela uma outra mexicana e Renata Aparecida dos Santos, integrante do grupo do assaltante Marcelo Borelli.
Em meio às ameaças, uma agente e um delegado da PF acompanhados do advogado Hélio Rodrigues de Macedo iniciaram as negociações com os rebelados, que só libertaram o agente Marcos Bandeira após ser apresentado a eles um despacho do juiz da 10ª Vara Federal de Brasília, Ronaldo Desterro, autorizado a transferência dos presos para São Paulo e Paraná. À noite, Borelli foi transferido para o Paraná, os outros para São Paulo.
O ministro da Justiça, José Gregori, determinou à direção da Polícia Federal que instaure inquérito policial para investigar como o presidiário Marcelo Borelli conseguiu render um agente penitenciário na Polícia Federal. ‘‘Isso vai ser apurado rigorosissimamente’’, disse Gregori. ‘‘Vamos a fundo saber como uma pistola foi parar na mão dele.’’ Ao fazer as declarações, no entanto, Gregori ainda não sabia que a arma era de brinquedo.
Para o ministro, o fato é ‘‘grave’’ e seria ‘‘inédito’’ na PF. Uma das preocupações das autoridades do governo federal era com a presença, na mesma carceragem, do traficante Luiz Fernando da Costa, o ‘‘Fernandinho Beira-Mar’’. Gregori disse que não havia riscos de fuga e que Beira-Mar estava ‘‘isolado’’ do grupo de Borelli.

mockup