ROMA (AE-NEWSWEEK) - Um dos maiores astros do rock afirma que a ajuda aos mais pobres é uma questão moral premente de nossa época. É o tipo de apoio que agradaria a qualquer campanha. Na semana passada, o papa João Paulo II reuniu-se com um grupo de celebridades demonstrando apoio ao cancelamento das dívidas do Terceiro Mundo. A campanha Jubileu 2000 está pressionando os países desenvolvidos e estornar as dívidas de mais de 50 dos mais pobres países do mundo para marcar a passagem do milênio.
Na delegação que se reuniu com o papa estava Bono, principal vocalista da banda irlandesa U2. Depois ele falou a William Underhill, da Newsweek.
Trechos da entrevista:
UNDERHILL: Por que você abraçou a causa do Jubileu 2000?
BONO: Ela começou 18 meses atrás. Eu acabara de fazer um discurso à minha banda dizendo que não ia desviar minha atenção de nosso próximo disco. Mas aí veio essa idéia eu poderia reunir toda essa energia e expectativa por algo que é na verdade uma data arbitrária e lhe dar algum sentido, para que quando acordássemos em 1.º de janeiro do ano 2000 pudéssemos sentir que a noite anterior não havia sido só fogos e artifício e champanhe. P. Quais os atrativos do movimento? R. É tão deprimente assistir ao noticiário da noite e notar que o sofrimento nunca termina. As pessoas entram com dinheiro e ainda assim parece que não basta. Essa impressão de impotência pode levar à depressão ou à raiva. No meu caso foi raiva. Fiquei irritado ao descobrir que, para cada dólar de ajuda governamental concedida à áfrica, os países africanos deviam US$ 9 relativos aos empréstimos que tomaram. Fiquei supercontente quando arrecadamos US$ 200 milhões com o LiveAid. Depois descobri que a áfrica paga semanalmente US$ 200 milhões pelo serviço de suas dívidas. Seria incrível se 1999 pudesse ser lembrado não por causa da destruição de dois territórios
Kosovo e Timor Leste , mas por causa da reconstrução de 50 dos países mais pobres da Terra.
P. Você tem só três meses de prazo para alcançar seu objetivo. Acha que tem mesmo chance de sucesso?
R. O Jubileu 2000 já reuniu o que é seguramente a mais vasta coligação desde o fim do apartheid (segregação racial na áfrica do Sul). Ela tem economistas como Jeffrey Sachs; astros pop como eu e Quincy Jones; clérigos como Billy Graham; o Dalai Lama e sua santidade o papa. A Iniciativa Colônia (proposta do Grupo dos 7 feita em meados deste ano para prorrogar os atuais programas de afrouxamento das dívidas) foi um grande começo, mas eu gostaria que (o presidente americano) Bill Clinton e (o primeiro-ministro britânico) Tony Blair o considerassem apenas a primeira etapa. Creio que a força de vontade política existe. Falei com Jim Wolfensohn (presidente do Banco Mundial) e acho que ele vai fazer sua parte se os políticos o acompanharem. Quando as pessoas são deixadas fora do âmbito da prosperidade potencial recorrem facilmente a outras ideologias. Usemos um pouco de medicina preventiva antes que precisemos gastar dez vezes mais com a cura.
P. A campanha atraiu grande número de celebridades. Qual a influência delas?
R. Conforme Bob Geldof disse, não podemos conquistar todo um eleitorado mas somos ouvidos por um deles, que é bem grande. Devo dizer que as pessoas influentes com as quais me reuni nos últimos seis meses têm uma mente aberta que é de surpreender. Mas não acho que elas se abriram a mim; abriram-se à idéia. Ao fim de poucos minutos, não é um astro pop que elas estão ouvindo: é uma idéia. Pessoas inteligentes notam o que é uma grande idéia quando ela é exposta. Paul Volcker (ex-presidente do Federal Reserve, o banco central dos EUA) morreu de rir ao ficar sabendo da idéia. Ele disse: "Detestei-a em 1962, detestei-a em 1972." Mas forneceu-me os números relefônicos de pessoas a quem eu poderia falar. As pessoas sabem que é uma idéia cujo momento certo chegou, por mais incômoda que ela seja para os membros da comunidade bancária. Para estes, o não- cancelamento de dívidas é um dogma. Mas enfrentar a realidade é outro dogma. A áfrica já ultrapassou os limites de uma catástrofe. Todo mundo reconhece esse fato. Se você não vai receber nada de volta daqui a dez anos, é melhor não receber nada de volta agora.
P. Críticos dizem que é uma ingenuidade supor que qualquer economia feita com o afrouxamento das dívidas vai ser usado em projetos úteis.
R. A definição de pré-requisitos é fundamental. Reconhecemos isso. Caberá aos países devedores ter transparência; provar que o dinheiro não gasto no reembolso das dívidas está indo para a infra-estrutura, saúde e educação. Se não provarem, não terão afrouxamento da dívida. Não se pode dispensar o Sudão do pagamento de suas dívidas no meio de uma guerra.
P. Muitos membros das elites governantes que tomaram empréstimos e esbanjaram o dinheiro ainda estão no poder.
R. Isto serve de punição, mas também de estímulo. Incentivará os novos líderes da áfrica, como os presidentes Obasanjo (da Nigéria) e Mbeki (da áfrica do Sul) e afligirá regimes não autorizados a usar o afrouxamento da dívida porque eles oprimem seu próprio povo.
P. Que atitude o papa tomou?
R. Ele vem falando nisso desde 1987. A idéia, que inclui o abrandamento das dívidas a intervalos regulares ou "jubileus", está no âmago do pensamento judaico-cristão. O papa disse que, em meio a todo o alarde e pirotecnia, este milênio é também um ano de jubileu. A certa altura é preciso encarar isso como uma questão moral, não intelectual. No momento em que o planeta Terra desfruta de uma prosperidade impensável 100 anos atrás, nosso entorpecimento moral ficará bem evidente se não fizermos com que isso aconteça.

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